domingo, 31 de janeiro de 2010

DIA DA FREGUESIA DA SÉ

Dia de Sta. Maria
Comemorações do dia da Freguesia da Sé


Dia 2 de Fevereiro

17h30 - Biblioteca Municipal de Faro

- Sessão solene comemorativa com a participação do Prof. Dr. Rosa Mendes (Universidade do A1garve) e atribuição de medalhas de mérito a pessoas e entidades desta Freguesia.



21H30 - Teatro Lethes


- Sarau musical com a apresentação de um CD (Afectividades) da Fadista Algarvia Rosinda Vargues e momento de poesia.

sábado, 30 de janeiro de 2010



AO PROFESSOR AMÉRICO

Junto segue foto da equipa de Hockey Palmadinha, do 1º ano 1ª Turma, do ano lectivo de 1952/ 53, que me enviou o João dos Sants de SANTA LUZIA. Gostava que os bravos dessa turma e desse ano dessem notícias, de forma a podermos estar presentes no almoço anual dos costeletas em Vila Moura.

Aproveito para deixar a todos um abraço. E nesta mensagem vai também um abraço enorme para o PROF. AMERICO.

Eles são:

Em cima,

Humberto Gomes, António Ramos José, Celinho Sequeira,João dos Santos e Reinaldo Neto.

Em baixo,

Joaquim Cuz, Jorge Amado e Herlander Estrela.


JOÃO BRITO SOUSA

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Palácio Fialho
GRANDES FIGURAS ALGARVIAS

JOÃO ANTÓNIO JUDICE FIALHO


Faro 1951 ,se não estou em erro numa quinta feira verifiquei grande movimento no café Aliança , pertencente ao Empresário José Pedro da Silva . Que motivava esse movimento ao meio da tarde ! se não tinha acontecimentos que alterasse a rotina da cidade ?
Ouvi falar ser a bolsa que funcionava no mesmo , naturalmente que na época não entendia essa tal de Bolsa. ! mas sim que essas pessoas na maioria eram pequenos comerciantes do concelho e lá se reuniam para revender os produtos que compravam aos produtores , alfarroba , amêndoa etc. etc. . Produtos esses para as industrias destinadas á exportação em que figurava grandes empresários como Pegos , António Neves Pires entre outros .
No entanto quando se falava em grandes empresários Algarvios , o destaque era para alguém que nessa época já tinha falecido há 17 anos , mas que continuava vivendo no Imaginário como Figura Principal no Universo Empresarial da Época o Fialho !
Acontecia de tal forma que dias depois ao ver chegar ás traseiras da casa da Rua Letes que se falava ser do Fialho , uma charrete que se destacava pela luxo , deduzi ser o Fialho o passageiro , e até afirmava para conhecidos que o tinha visto em pessoa .
Erro que só descobri passado algumas dezenas de anos , e foi então que me questionei se a primeira metade do Século XX em Portugal existiu grande austeridade , se mesmo antes a monarquia se debatia com problemas econômicos , se até a primeira Republica quase levou Portugal á Falência , Alves dos Reis mandou duplicar uma emissão de dinheiro , nos Estados Unidos surgiu em 1929 a grande depressão que teve repercussões mundiais , que praticamente terminou com a segunda guerra mundial !
Como foi possível aparecerem ao Sul de Portugal essas figuras quase lendárias como a personagem deste artigo em que ressalto uma história /lenda que ouvi várias vezes .

Ao enviar para Inglaterra um barco carregado de Conservas , ao chegar lá os Importadores queriam impor um preço mais baixo que o estipulado . A ordem do exportador foi atirar a mercadoria ao mar mesmo á vista dos Ingleses .
Como precisavam do produto , apresentaram desculpas , solicitando novo envio dentro das condições anteriormente definidas . Ao que a resposta foi de que seria enviada a mercadoria mas a preço mais alto e era aceitar ou largar . E aceitaram !

João António Judice Fialho que nasceu em Portimão a 17-4-1859, casou em 1882 com D. Maria Antónia Cúmano, filha mais velha de Justino Cúmano, terá iniciado sua carreira profissional, através da venda de palamenta = Objectos e acessórios necessários á navegação e equipamentos para as embarcações de pesca, conseguiu adquirir as propriedades Areal Gordo e Pereiro, Courela Caliças, Fazenda Marachique, Quinta do Alto, Fazenda das Areias, Fazenda do Vau da Rocha, Atalaia e Benefícios, Horta de Olhão, Horta dos Fumeiros, Propriedade do Bom João, Fazenda do Monte Negro, Propriedade dos salgados e os morgados de Reguengo, Boina e Arge, e claro está a Quinta de Quarteira.
Várias fábricas de conservas por todo o país, assim como uma frota pesqueira na Terra Nova), criou também indústrias de massa de pimentos e de marmelada e outras actividades !
Se na época não existia o Euromilhões ( em que o valor seria para ele insignificante e não dava para construir o Palácio na Quinta do Alto , Como conseguiu todo esse Patrimônio ?
A resposta simplesmente nas actividades de Exportação que deu ao Algarve vários milionários !
Fialho no entanto Foi para o seu tempo, um homem de grande visão extremamente activo e empreendedor, qualidades que se destacaram nas inúmeras actividades a que se dedicou, maioritariamente na indústria fabril e na das pescas, contribuindo notavelmente para o seu desenvolvimento. Para a história deixou como legado um império empresarial que edificou ao longo da sua vida e, acima de tudo a actividade que desempenhou, na qualidade de cidadão e empresário, na defesa dos interesses do Algarve,
faleceu em Lisboa a 17-03-1934.
Não importa se seus descendentes não tenham sua capacidade e sejam pessoas comuns , nem que seu Patrimônio já não lhes pertença , mas que foi uma das grandes Figuras Algarvias Sim .

Saudações Costeletas
António Encarnação

EVOCAÇÃO


INTELECTUAL RESIDENTE EM FARO

JOSÉ CARLOS VILHENA MESQUITA


Nasceu 1-8-1955 em Vila Nova de Famalicão mas reside em Faro há mais de trinta anos, onde é Professor universitário e historiador.

Licenciou-se em História, na Universidade de Lisboa, com a média de 16 valores. Foi docente no ensino secundário, desde 1978 a 1983, e nesse ano iniciou a carreira universitária.

Em 1989, apresentou Provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica, sendo aprovado com Muito Bom. Em 1997 doutorou-se em Economia, na Universidade do Algarve, sendo aprovado com “Distinção eLouvor”.

Leccionou desde 1983 a cadeira de «História Económica e Social», nos cursos de Economia e de Gestão de Empresas e de «História Contemporânea» no curso de Sociologia na Universidade do Algarve.

Proferiu dezenas de Conferências, escreveu ensaios e publicou centenas de artigos na imprensa. Fundou em 30-1-1998 a Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve da qual é Presidente.
Nos seus blogues,
http://algarvehistoriacultura.blogspot.com/
http://promontoriodamemoria.blogspot.com/
podem ser lidos artigos de alto conteúdo histórico da região. E da cultura também, como este, que vai a seguir:
José Azinheira Rebelo, um homem da cultura algarvia quase esquecido
Conheci de forma esporádica e quase fugaz o conhecido colaborador da imprensa algarvia José Azinheira Rebelo. Era um homem de bom coração, sempre disposto a ajudar os mais desfavorecidos, e sempre muito preocupado com a conservação do património histórico e cultura do seu Algarve, sendo que como olhanense era dos mais fervorosos amantes daquela vila piscatória. Por tudo isso, mas também por ter sido um assíduo jornalista, não só da sua terra-natal como também de todo o Algarve, não pode permanecer esquecido na memória dos vindouros. É em honra do seu bondosíssimo carácter e do seu afectuosos algarviismo aqui lhe traçamos um breve esboço biográfico.


José Azinheira Rebelo, nasceu em Olhão a 12-1-1925, e aí faleceu a 8-4-1999; era filho de João Arcanjo Rebelo, antigo solicitador forense, e de Clarisse Luísa Azinheira Rebelo, ambos naturais de Olhão e há muitos anos desaparecidos. Fez apenas a instrução primária, concluída na Escola mista de Brancanes, começando a trabalhar aos 11 anos de idade como marçano numa loja de Olhão. Aos 17 anos era empregado de escritório num armazém industrial, passando depois por uma oficina de serralharia até chegar a vendedor de uma empresa de Lisboa, de cuja delegação em Faro chegou a ser gerente. Aos 36 anos estabeleceu-se em Faro com uma loja de ferramentas, máquinas e artigos para a indústria, a qual deixou aos 66 anos de idade

Informação recolhida do blogue http://algarvehistóracultura.blogspot.com/


por JBS.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

3 DOCUMENTOS DE HEROIS ESQUECIDOS




Clicar em cima do documento para aumentar.
HERÓIS ESQUECIDOS
__________________


Em boa hora o nosso bom amigo e Costeleta A. Viegas Palmeiro, em artigo publicado no nosso Blogue, em 20 do corrente, tocou nas feridas que ainda supuram e se encontram por suturar na maioria duma geração de jóvens, ex-combatentes do Ultramar, que deu o seu melhor nos antigos territórios ultramarinos.

Sou membro da Direcção do Núcleo de Oeiras /Cascais da Liga dos Combatentes e bastante sensível a toda uma situação de injustiças , ostracismo e abandono a que foram votados os filhos deste nosso Portugal, agora pigmeu, que deu Mundos ao Mundo e que pseudo- libertadores, renegados e desertores, com ódio redobrado atiraram para o esquecimento.
A Liga dos Combatentes, por intermédio da sua Direcção Central e embora com reduzidos apoios está procurando colmatar um problema grave que se arrasta desde o fim das guerras do Ultramar, que muitos Ex-Combatentes carregam às costas e têm tido lastimáveis reflexos nos seus descendentes e famílias.
Centenas de companheiros nossos, Algarvios e Costeletas, passaram pelo Ultramar e outros por lá ficaram para sempre.
Seria de todo o interesse que todos os nossos Costeletas e familiares tivessem cohecimento do que se está procurando fazer pelo CENTRO DE ESTUDOS NO APOIO MÉDICO, PSICOLÓGICO E SOCIAL na Zona Sul e Algarve.

Espero que a divulgação deste nosso panfleto possa ajudar a resolver muitos dos actuais problemas que afligem os nossos Ex-combatentes e familias, cuja responsabilidade cabe aos Governantes e, particularmente, ao Ministro da tutela. Os sucessivos governos nascidos depois do 25 de Abril , práticamente esqueceram aqueles que deram sangue suor e lágrimas pela sua Pátria.

Estoril , 28 de Janeiro de 2010
MAURICIO SEVERO DOMINGUES
RELEMBRANDO GRANDES FIGURAS ALGARVIAS

MÁRIO LYSTER FRANCO

De Alfredo Mingau

Mário Augusto Barbosa Lyster Franco, de seu nome completo, nasceu em Faro a 19-2-1902, no seio de uma família ilustre. Fez os seus estudou preparatórios e liceais em Faro. Seu pai, o pintor Carlos Augusto Lyster Franco, natural de Belém, foi uma das personalidades mais distintas e admiradas na sociedade farense dos princípios do século XX, tendo sido meu professor da disciplina de Português, nos anos 40, na nossa Escola Tomás Cabreira da Rua do Município.

O Dr. Mário Lyster Franco, era um intelectual de fina têmpera e raro talento, que se bateu denodada e acerrimamente em defesa dos valores humanos, paisagísticos e culturais que melhor caracterizam a nossa região.

Ser algarvio para Lyster Franco era um orgulho

O "Estado Novo" nomeu-o para a honrosa responsabilidade de Presidente da Câmara Municipal de Faro, onde se manteve durante dois mandatos, de 1932-34 e 1937-39, prosseguindo depois ainda mais alguns anos como vereador

Uma das suas iniciativas mais curiosas foi a criação em 23-6-1932 do Museu Antonino de Faro, o segundo do país, e até há bem pouco tempo o mais visitado do Algarve.

Em 1946 assumiu a direcção do semanário «Correio do Sul», o mais prestigiado órgão da imprensa algarvia de todos os tempos, ao leme do qual se manteria quase quarenta anos

Faleceu a 20-8-1984, na Clínica de S. José de Camarate, em Lisboa, onde dera entrada oito dias antes.

A lista de obras de Mário Lyster Franco reparte-se entre a arqueologia, a história e a literatura algarvia, num total de trinta títulos, dos quais nunca se fez uma reedição

A publicação da Algarviana - Subsídios para uma Bibliografia do Algarve e dos Autores Algarvios, essa sim a obra da sua vida, uma publicação que teve o mérito de José Carlos Vilhena Mesquita em que este afirma sem exagero, a alma-mater da cultura algarvia.

O Dr. Mário Lyster Franco foi professor na nossa Escola Tomás Cabreira, da Rua do Município, e recordo-o como presidente do Júri do meu exame de Dactilografia em 1943.

(Nota) - Como já afirmei num comentário, a minha colaboração em “Relembrando Grandes Figuras Algarvias” é feita no sentido vernáculo, que tem e continuará a projectar-se sobre e apenas, figuras do nosso Algarve, focando, somente, a minha pesquisa, na parte sintética da personagem, no sentido do reconhecimento delas.
AM

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

È com grande satisfação que assistimos ao regresso de João Brito de Sousa. Um abraço Costeleta.
RC
GOSTEI DE SABER E VER,

que o blogue http://oscosteletas.blogspot.com/ foi citado no espaço grandelisboa.net com referencia à coluna do Alfredo Mingau, com o título, RELEMBRANDO GRANDES FIGURAS ALGARVIAS.

Quero manifestar à Direcção da aaaetc e por sua vez do blogue, a minha satisfação por ter constactado que afinal o esforço que têm vindo a despender foi reconhecido, o que é gratificante.

Por outro lado, quero levar até ao costeleta Alfredo Mingau o meu reconhecimento dos bons trabalhos que produziu em favor da elevação cultural do blogue.

Deixo a todos os meus cumrimentos.
João Brito Sousa

EFEMÉRIDES

ANIVERSÁRIOS DE ASSOCIADOS COSTELETAS

Fazem anos na 1ª quinzena de Fevereiro:
1-José Inácio de Brito. 2-Maria Emília Romano Escorrega Gonçalves Pêgo; Maurício Severo Domingues. 3-Heraclides Cabrita Silva. 5-Maria Célia Rodrigues da Encarnação Revez. 6-Nair Ribeiro da Silva. 7- Eduardo Romualdo E. Mar¬tins; Manuel Inocêncio da Costa. 8 – Edmundo Gomes Fialho. 9- Maria José Fernandes; Rosa Ana Maria Machado Martins. 10-Joaquim Cláudio Gonçalves; Maria Isabel Dias Pereira; Zélia de Jesua Silva; Natália Joaquina das Dores Pires Caetano. 12 - Maria Suzete Amaro Pavão Romeiro Casaca. 13-Alberto Concei¬ção Trindade. 14-Maria da Conceição B. Lourenço Dias; José Rosário da Silva. 15- Natália Maria Soares Marum; Maria Filipe Vieira de Sousa Guerreiro
PARABÉNS A TODOS
RC
ENCONTRO COM MÁRIO ZAMBUJAL
A convite da Direcção da Associação de Solariedade Social dos Professores-Algarve e por sugestão do "Clube de Leitura" desta Associação, que se debruçou sobre a sua obra Já não se escrevem Cartas de Amor, Mário Zambujal estará presente na Casa do Professor em Pechão, dia 29 de Janeiro, às 16.00 horas.
RC
SARAU MUSICAL
Dia 2 de Fevereiro, às 21.30 horas, no Teatro Lethes, sarau musical para apresentação do CD Afectividades da fadista Algarvia Rosinda Vargues, e momento de poesia, integrado nas comemorações do Dia da Freguesia da Sé de Faro.
(Entrada livre)
RC

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

AGRADECIMENTO

Agradecemos ao blogue grandelisboa.net as referências, que hoje fazem,
ao nosso tema:
Relembrando Grandes Figuras Algarvias,
da autoria do Costeleta
Alfredo Mingau
A Direcção

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Foto do Moinho dos grelhas em que a última moleira foi D. francisquinha Grelha mãe do josé Grelha , fiscal da Câmara e marido da Professora que na época ensinou as primeiras letras na escolinha da casa dos rapazes a vários Costeletas provenientes da mesma .



As Morraceiras


Uma Profissão que terminou há mais de 50 anos , pela evolução das Tecnologias após a guerra .

A População Rural nessa época ( anos de 1940 a 1955 ) vivia num percentual elevado dos produtos que cultivava numa agricultura de sobrevivência em minifúndios tanto nas áreas de Sequeiro como irrigadas ,ou de ‘ Regadio “ .A área de regadio ou hortas entende-se por uma distancia entre o Litoral e interior de 5 a 7 Km. que no concelho de Faro se verificava até aos limites da Conceição de Faro , Besouro , ( com algumas hortas em bela Salema ) e S. João da Venda .
Actualmente muito se fala em Bicombustível , agricultura Biológica ou orgânica , ( os Agrotóxicos apareceram nos primeiros anos da década de 50 para controlar o carocho Americano ( Escaravelho da batateira , falava o povo ter sido importado pelas multinacionais Americanas para vender o DDT ) . A fertilização orgânica em alguns casos era complementada com a adubação Química que se limitava a alguns corretivos de terrenos designados por “ Buano e Nitrato de Amônio “ .

Nessa época a Morraça em parte era matérias primárias da alimentação animal , a diferença era que não existia o Parque automóvel da forma actual !
Algumas máquinas eram movidas pela força animal em tarefas como arar e endireitar terrenos , puxar engenhos na Tiragem de água para irigação , transportes dos Produtos , ( Nos transportes de pessoas . se notava a situava econômica dos utentes : os pobres utilizavam burros , os remediados ou classe médias Mulas e Machos , enquanto os Ricos os Cavalos. ) Também no Trabalho agrícola era empregadas vacas geralmente Ruívas , porque as de cor Branco e Preto eram Leiteiras .

Os Agricultores precisavam de alimentar os animais que com eles conviviam e trabalhavam , e a Fonte de Alimentação estava na Ria Formosa .em paralelo com outros produtos Alimentares, Peixes e mariscos diversos , até que na época não tinham ainda acesso ás Rações nem Concentrados para animais que se limitavam ao Farelo de trigo também denominado de semea ,

A Ria em Faro se centralizava na Canal que vinha da Ilha do Farol até pouco depois do local onde a Marinha Fundeava as canhoneiras Bicuda e Azevia .
Em ambos os lados saíam as denominadas regueiras que se sub/dividiam em outras mais pequenas que no Movimento das Marés cobriam quase a totalidade dos ilhotes e parchais . Precisamente nesses ilhotes se encontravam dois grupos de Plantas :
A Morraça de cor Verde que conforme crescia as folhas agarradas ao caule . Planta pela sua natureza pode atingir os 50 cm. ou mais . Mas seu Valor energético e nutritivo se encontra enquanto sua altura não subia além dos 25 cm .
Desconheço seu valor protéico , mas deduzo esteja na média dos 20 % , , logicamente que não tão concentrada como os grãos das Plantas milho etc. mas na utilização alimentar das Vacas Leiteiras aumentava a Produção do Leite ( embora o mesmo tivesse um paladar característico da mesma )
O outro grupo era formado por algumas variedades a que na generalidade chamavam de Mato , arrancada por uma “ Ganchorra “ ( tinha um cabo de madeira que termina com dentes grossos virados para dentro que passando pelo mato o quebrava perto da raiz , Esse mato era utilizado nas camas dos animais ( poupando a palha e o feno ) e se transformava no estrume ( o adubo orgânico ) que fertilizava as culturas .
Existia ainda outro Produto chamado por Sêba ( folhas compridas e finas existentes no fundo da Canal e regueiras maior que se ao despender se juntavam nas areias das ilhas e também dos ilhotes ) sua utilização era a de conservar as batatas evitando a traça .
As Morraceiras
Na generalidade mulheres dos Agricultores que iam apanhar a Morraça , na generalidade um dia por semana , em pequena percentagem os homens !
Vinham desde Machados , Bordeira . Alcaria Cova , muitas da Falfosa , descendo outros sítios até ao litoral . Não é exagerado falar em vários milhares que tendo como ponto de Partida os Moinhos existentes com seus pequenos cais desde o da Torrinha até ao do Ferradeira depois do Chale das Canas , embarcavam em Lanchas com destino aos ilhotes para apanhar a Morraça .
Algumas eram profissionais que apanhavam diariamente a Planta para vender a clientes agricultores enquanto muitos marítimos que na generalidade vendiam o Mato e a Seba também se dedicava á Morraça .
A venda tinha como medida básica a designação de Maré , o que equivalia a uma quantidade numa média de cerca de 400 litros , efectuado por vinte escudos , tendo de pagar vinte e cinco tostões ao barqueiro ( o salário agrícola era para as mulheres de doze escudos e dos homens vinte escudos )
. Naturalmente muitos Marítimos apanhavam o equivalente até três marés ou mais . mas a concorrência ou competitividade não era significativa até que cobravam das Morraceiras a passagem .
A Morraça era apanhada em horários de acordo com as Marés antes da água cobrir os Ilhotes , as mesmas denominadas de Marés Vivas consoantes as fases da lua Nova e Cheia , enquanto nos quartos Minguante e Crescentes eram as marés Mortas .
Nas marés vivas o tempo de trabalho era menor podia terminar antes do meio dia , mas as plantas encontravam-se mais Viçosas e fáceis de ser apanhadas ou ceifadas com uma foice com cerca de 40 cm com uma pequena curva e dava mais produtividade .
Depois tinham de lavar as plantas para separar as lamas o que aconteciam num recorte do ilhote ! de Inverno era um trabalho difícil devido ao frio do Clima e da água .
Todo essa actividade desenvolvia bastante movimento que testemunhei na Praia dos Estudantes entre os Moinhos do Manuel Lázaro e da Francisquinha Grelha , junto ao qual existia um cais privativo da fábrica Fritz para carga e descarga da Cortiça por via marítima .

Esta recordação é a minha homenagem a muitas dessas personagens das quais existe pouco sobreviventes actualmente .

Saudações Costeletas
António Encarnação

domingo, 24 de janeiro de 2010

CANTINHO DOS MARAFADOS


A frase tem 2064 anos ...

Quem diria...
O Homem sabia do que falava......


Palmeiro

MORREU UMA GRANDE MULHER


Deixei passar propositadamente alguns dias sobre a tragédia do Haiti para tentar escrever um pouco mais friamente sobre alguém com quem tive a grande honra de me encontrar uma vez.
É assustador a forma como passamos a vida olhando para o próprio umbigo e praticamente não tomamos conhecimento de desaparecimento de alguém, que entregou a vida a uma causa e por essa mesma causa morreu.
Um futebolista, um politico, ou alguém que fosse figura habitual das chamadas “revistas cor de rosa” claro que ninguém iria ignorar.
A Rádio Vaticano ao anunciar a sua passagem para uma dimensão superior, disse: Morreu a grande mãe brasileira, eu retiraria aqui brasileira, por ela foi a grande mãe do Mundo, não tinha nacionalidade. Onde houvesse crianças e idosos necessitados, esse era o seu lugar.
Refiro-me objectivamente à médica sanitarista Zilda Arns Neumann, Fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança. Tornou-se conhecida pelo seu trabalho no combate à mortalidade e desnutrição infantil. Foi uma mulher sempre solidária com os desfavorecidos, apesar de ver tanta miséria e tanto absurdo, jamais demonstrou, revolta, tristeza ou amargura, sentia com certeza esses sentimentos, mas sempre conseguia, com a sua alegria e beleza, arrastar consigo um “exército” de seguidores.
Tinha há um tempo atrás entregue à Irmã Vera Lúcia Altoé a coordenação da Pastoral da Criança no Brasil, tendo assumido a Pastoral do Idoso, sempre voltada para aqueles que não têm voz e que estão limitados pela idade, continuou no entanto à frente da Pastoral Internacional da Criança.
Transcrevo aqui um trecho do discurso que a Dra. Zilda fez minutos antes de morrer:
“Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmo” significa trabalhar pela inclusão social, fruto da Justiça, significa não ter preconceitos, aplicar nossos melhores talentos em favor da vida plena, prioritariamente daqueles que mais necessitam. Somar esforços para alcançar os objectivos, servir com humildade e misericórdia sem perder a própria identidade.
Cremos que esta transformação social exige um investimento máximo de esforços para o desenvolvimento integral das crianças…
Como os pássaros que cuidam de seus filhos ao fazer o ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe dos predadores, ameaças e perigos, e mais perto de Deus, devemos cuidar dos nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los .
A médica Zilda Arns dedicou a existência a minorar o sofrimento dos desfavorecidos e a evitar o desperdício da vida. Até ao último minuto. Viveu como Santa e morreu como mártir aos 75 anos.
Nasceu em Forquilhinha, Estado de Santa Catarina, era viúva de Aloysio Neumann, 13ª. filha de um casal descendente de alemães, mãe de 6 filhos. A morte do marido aos 46 anos num acidente no mar alterou o curso da sua vida, a partir daí ela começou a alterar o destino daqueles que a miséria e a ignorância havia fadado para o sofrimento.
Era irmã de D. Paulo Evaristo Arns, que foi Cardeal Arcebispo e hoje Arcebispo emérito de São Paulo.
A Dra Zilda, com certeza jamais será esquecida por aqueles que a admiravam, peço licença para me incluir neste número, e por todos aqueles que beneficiaram da sua bondade, do seu carinho, da sua ajuda e sei que não exagero ao falar em milhões de crianças e idosos.

DESCANSE EM PAZ


António Palmeiro

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010


OS MEUS MESTRES


Recordo-os com amizade.


1º ano 1952

CARPINTARIA:

MESTRE MÁRIO, um verdadeiro Mestre, de voz suave e amiga, parecia que tinha Deus dentro da alma. Um bom amigo. Declamava o Fado Falado como o João Villarett.

MESTRE ROSETA, era um companheiro, gaguejava um pouco mas sorria. Tinha a nossa consideração.

MESTRE GUERREIRO, queria arrastar-nos todos para o Curso de Construção Civil e os que quiseram ir usavam uma fita no braço com essa indicação. A sua bengala era um canudo de cartão grosso.

SERRALHARIA:

MESTRE DAMIÁO, um bom homem que sabia comunicar com os alunos, percebia do ofício e era um bom educador.

MESTRE CRUZ, simpático e competente. Ajudava a rapaziada com entusiasmo e alegria.

MESTRE MOEDA, de poucas conversas mas competente.


5º ano 1958

MESTRE CAROLINO, tantas histórias com o Mestre. Na aula do Mestre Carolina, se eram 5 horas da tarde, para ele eram 17 horas, 5 horas , o quê… retorquia.

Essas motas a subir a ladeira …

Senhor Mestre não percebo aqui uma coisa?... pergunte à máquina… e por aí fora…


Uma pequena recordação.
João Brito Sousa
Colocado por RC


QUANDO ALGUÉM PARTE

O nosso associado nº 596 – Aníbal Rocha Fernandes Norte, partiu

Aos familiares e amigos deste Costeleta apresentamos o nosso mais profundo desgosto
QUE DESCANSE EM PAZ

DO CORREIO


Faro - Ermida de S. Luís
Subúrbios cidade de Faro anos 50

Na época a cidade praticamente se encontrava nos Limites entre a denominada Estrada da circunvalação ( Ruas Aboim Ascenção , G. Teófilo da Trindade e José de Matos ,) ao Norte e pela Linha do Caminho de ferro ao Sul .

Na parte Norte depois entre a Estrada Senhora da Saúde e do Alportel num Edifício Rosa , existia um chalé com um Aero Motor perto , depois o refugio Aboim Ascenção , na altura com vacaria e horta , Seguindo pelo zonas das Adegas “ João Pires e Abel Pereira da Fonseca ,” as casas do Alto da Caganita e Alto Rodes ligavam á entrada na cidade pela rua do Alportel .
Entre a mesma até há de S. Luiz/Penha encontrava-se a Carreira de Tiro .,e sendo nessa década inaugurado o Mercado Municipal , que deu origem a edificações até ao bairro de S. Luis .
Ao lado encontrava- se extensões rurais com Amendoeiras que terminavam na estrada de Olhão , e a poente foi Edificada a Farauto , e mais tarde iniciada a Urbanização da horta do Rodolfo e outras nessa área .

Ao entrar na cidade tinha os Postos da Polícia de Viação e Transito nas Estradas de Loulé e Olhão e nas de Alportel e Conceição/Penha , prestavam serviço Sinaleiros .

Limites da Cidade e Subúrbios
A Estrada de Loulé ia até á denominada Horta das Figuras , Sendo considerado como subúrbios as Pontes de Marchil. Patacão e Monte Negro..

Estrada Senhora Saúde , depois de passar pelas Taberna com Letreiro de Bons Vinhos , ao lado esquerdo o “caminho para acesso ás hortas , lado Direito a Fábrica do Caiado e casas até uns 200 metros , terminando antes da Horta do Cipriano . os Subúrbios a Senhora da Saúde e Mar e Guerra .

Estrada do Alportel seguia até Vale de Carneiros onde se localizava um pequeno Bairro denominado " Casas da Barulha " ( D. Marquinha para quem a conhecia ) Subúrbios eram o Vale da Amoreira , Escuro e os Sítios do Clelote e Bate Cu nas Campinas de Faro .

A Estrada da Penha/Conceição depois do estádio de S. Luís e o cemitério dos Judeus , se localizava o denominado bairro da Lata , e começava a parte rural na Horta conhecida como do papa Figo .Suburbios a freguesia da Conceição de Faro

A estrada de Olhão praticamente terminava perto do Rádio naval . Subúrbios o Rio Seco .

Seguindo a Rua José de Matos passava pela horta do Peres praticamente terminava depois do Bairro do Bom João e Casa dos Rapazes .Sendo conhecida pela Estrada do Moinho da Palmeira ( Ferradeira e outro ) já no Subúrbio o Chalé das Canas onde anos mais tarde criou fama o pequeno restaurante do António Palhoca

Mas a cidade não tinha eliminado a parte Rural , encontrava-se ao lado da Alameda a Horta do Ferregial onde se encontra a esquadra da PSP , funcionava um Lavadouro em que as pessoas da cidade iam ou mandavam lavar as roupas , existia outro lavadouro localizado no largo do sol Posto se a memória não me falha ? .e mesmo no Largo de S. Francisco junto ás muralhas da Cidade tinha a vacaria do Soares .

Ao Sul da via Férrea as salinas do Neves Pires , a Horta da Areia que dava entrada para os Serviços de Limpeza com suas carroças e a montureira onde o Lixo da cidade se transformava em adubo para as hortas ( na época não existia Plásticos nem o vidro era descartável ) seguidas das Oficinas e mais á frente estaleiro de obras da Opca , as Hortas do Bolas , do Frederico e do Pires , depois a Fábrica de Cortiça conhecida como do Fritz e nos Limites da mesma estava a “ Passagem de Nível da C P “ do Chale das Canas .

Saudações Costeletas
António Encarnação

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

NOTÍCIAS

DO JORNALISTA JOÃO LEAL


COSTELETAS EM ARTE E SOLIDARIEDADE
Um grupo de jovens alunos da «nossa» Escola Tomás Cabreira marcou fraterna e assinalada presença na «4a Gala Maria Campina», organizada pela Fundação Pedro Ruivo e cuja receita reverteu a favor da Delegação de Faro da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla, entidades que são presididas pela «costeleta» Maria de Jesus Bispo.
Tratou-se jovens «costeletas» do 10 e 20 ano de PIDC da Escola Tomás Cabreira que, com coreografia do Professor Pedro Curado ali fIZeram «arte e solidariedade» em dança artística.
Parabéns pela classe exibida, pelo gesto fraterno e pelo exemplo de que o espírito da Escola se mantém nas novas gerações.

ESCOLA EM GESTO SOLIDÁRIO
Registamos, porque prossegue uma atitude desde sempre assumida pelos costeletas, em todos os tempos, a recolha havida, durante a campanha nacional, de bens para apoiar o Banco Alimentar do Algarve, na sua solidária acção, com relevância própria neste tempo de crise económica, de ajudar os mais carenciados.
No átrio da nossa Escola foi colocada uma caixa onde os actuais professores, empregados e alunos depositaram os alimentos doados, na sequência do apelo lançado pela Direcção da ETC, de que é Presidente o Dr. Domingos Grilo, numa acção que «visa(va) fomentar a solidariedade e entreajuda, bem como, o empenho de toda a comunidade escolar».

«COSTELETA» PADRE HÁ 18 ANOS
No dia 8 de Dezembro (Dia da Imaculada Conceição) completou o 18° aniversário da sua Ordenação sacerdotal o «Costeleta» Padre Augusto Martins do Ó de Brito, actual Pároco das Comunidades de São Bartolomeu de Messines e de São Marcos da Serra.

«UMA NOITE NÃO SÃO DIAS»,
NOVO LIVRO DO COSTELETA «MÁRIO ZAMBUJAL»

«As pessoas mudam o mundo, o mundo não muda as pessoas», escreve o conhecido escritor e jornalista, nosso muito estimado colega Mário Zambujal no início do seu mais recente livro «Uma noite não são dias», por ele classificado de «uma história verídica», onde não faltam os amores e desamores, que atravessam todas as eras e cujo conteúdo ocorre «garantidamente, no ano de 2044».
Com aquele superior humor, que sempre lhe foi intrínseco, Mário Zambujal, com permanente interesse neste livro «Uma noite não são dias», lança o repto aos «inevitáveis cépticos e maldizente a avaliar - 2044 vem já aí - a verosimilhança das novidades urbanas, técnicas e de costumes».

João Leal

Colocado por RC

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

DO CORREIO ELECTRÓNICO

Transcrevemos a carta recebida da nossa associada Marília Pedrinho Martins:

Olá amigos,
Aproveito a oportunidade para vos desejar um óptimo e feliz Ano 2010.
Hoje efectuei a transferência de 20 euros, através do Multibanco, para pagamento da quota,
Quero agradecer aos membros da Direção, a disponibilidade, simpatia e generosidade , pelo desempenho do cargo. Tambem o meu obrigado aos colegas que colaboram no " O Costeleta" com os deliciosos artigos , que me recordam o tempo de estudante na Escola.
A todos um grande abraço de amizade, saúde e tudo de bom , da "Costeleta".

Marília Pedrinho Martins

Os nossos agradecimentos.
Tomámos nota do pagamento da quota.
Um Bom ano 2010 com muita saúde.
A Direcção


HERÓIS ESQUECIDOS


Caro Diogo

É verdade que o assunto ex-colónias, incomoda muita gente ainda.
Os heróis não foram os que, passe a expressão, “deram o corpo ao manifesto” os que hoje são, designados e tratados como tal, foram aqueles de se sacrificaram e arriscaram a vida em Paris (podiam ser atropelados quando iam para o café ler o jornal e ver a lista de nomes dos trouxas que morriam que nem tordos em África). Em Argel as mordomias não eram tantas, mas também se “estava bem” como hoje se diz.
Mas que mais se pode esperar de um país que já teve como Chefe Supremo das Forças Armadas, um desertor refractário?
Nos almoços anuais em que participo, como é natural, as recordações são o prato forte, as boas e as más, também naturalmente as injustiças, mas acima de tudo as omissões.
Uma geração, hoje na faixa etária (maioritariamente) entre os 55 e os 70 anos, com sequelas graves, principalmente problemas de saúde ao nível psicológico. Noites e noites sem dormir e sem a assistência médica adequada, totalmente abandonados à sua sorte.
Poderá pensar-se que critico no sentido de que eu venha a beneficiar de algo, não é esse o objectivo, uma vez que felizmente para mim e para os que me rodeiam, não apresento qualquer sintoma de stress pós-traumático (o nome é bonito). O objectivo é unicamente o de agitar consciências e alertar para um problema real, quem sabe algum ex-combatente (nem que seja só um) possa vir e beneficiar deste meu grito, esperança é a ultima que morre. não queria concordar com o João, quando num comentário diz que provavelmente ninguém irá ouvir (no caso ler) o meu apelo e tudo continuará na mesma. Sinceramente João acho que tens razão.
O que vai continuar na mesma também, são as noticias, de vez em quando publicadas nos meios de comunicação social de que um ex-combatente cometeu um crime, quase sempre assassinato; só omitem que em 95% dos casos é alguém que se tivesse sido atempadamente tratado, nunca cometeria tal acto.
Meu caro Diogo, muito mais haveria para dizer, mas fico hoje por aqui. Prometo no entanto voltar muito brevemente ao assunto.
Um abraço e muita saúde e sorte por essas terras do tio Sam.
Palmeiro

FALANDO DE...

FIGURAS ALGARVIAS

ANTÓNIO RAMOS ROSA




Na Igualdade da Torrente

Na igualdade da torrente, uma só árvore,
palavras e pedras acolhendo
uma cabeça ao ritmo das vagas,
e uma sombra oval sobre as espáduas,
respirando lentamente o ar redondo,
os reflexos nos ramos, semelhanças
de um sopro, os anéis do dia,
sem fim nem centro a inacabada arca
que sobre o mar, errante, é a permanência.

António Ramos Rosa

O Poeta

António Víctor Ramos Rosa nasceu em Faro, 17 de Outubro de 1924, é um poeta português, ainda reconhecido como desenhador.
Ramos Rosa estudou em Faro, não tendo acabado o ensino secundário por questões de saúde. Em 1958 publica no jornal «A Voz de Loulé» o poema "Os dias, sem matéria". No mesmo ano sai o seu primeiro livro «O Grito Claro», n.º 1 da colecção de poesia «A Palavra», editada em Faro e dirigida pelo seu amigo e também poeta Casimiro de Brito. Ainda nesse ano inicia a publicação da revista «Cadernos do Meio-Dia», que em 1960 encerra a edição por ordem da polícia política.
Fez parte do MUD Juvenil.
O seu nome foi dado à Biblioteca Municipal de Faro
Esteve ligado às revistas Cadernos do Meio-Dia, Árvore e Cassiopeia. Tradutor, crítico literário, ensaísta e poeta. Além de uma grande depuração da palavra, reflecte sobre o fenómeno poético.
RC.



terça-feira, 19 de janeiro de 2010



FUI À ESCOLA (II)


O toque para a entrada nas aulas era às 8 horas e 45 minutos da manhã.
O António José, de S. Braz, que estava hospedado na rua do Compromisso e era inseparável do Neves, um rapaz que desenhava muito bem e que morava no prédio da Recauchutagem Leopoldo, sito na Rua Aboim Ascensão à esquerda quando se sobe, em frente ao Largo do Carmo, era dos primeiros a chegar. Encostava o pé direito à parede e por ali ficava à espera da malta mas, sobretudo, o fito era ver as moças passar.

Antes dos portões abrirem para os alunos entrarem, já havia agitação pelos lados do estabelecimento Felizardo & Glorinha. O Xavier, que vinha de fora e chegava quase sempre atrasado, tinha o primeiro tempo de aula no estabelecimento comercial. Ti Glorinha, quero isto…quero aquilo…. E a senhora Glória, uma espécie de secretária do Conselho de Administração da firma, despia a sua farda de comerciante e vestia a sua bata de Mãe. Era uma mulher fantástica, que tinha no rosado da face a grandiosidade das mães e na sua voz firme, o olho posto no lucro, característica dos grandes comerciantes. Foi sempre uma profissional empenhada, que defendeu e bem o seu negócio e que ainda teve tempo para nos dar um pouco do seu coração e educar-nos com firmeza e atitude. Uma grande mulher.

O portão para a entrada dos rapazes, era na parte de cima da Escola e entravamos por aí, na zona onde ficavam as oficinas e, se tínhamos trabalhos oficinais, ficávamos logo por ali, caso contrário, vínhamos para as aulas em sala, descendo as escadarias, passávamos ao lado do Ginásio e dávamos os bons dias ao senhor Armando, um contínuo baixote que estava destacado aí e usava um bigode preto escuro carregado, e era amigo da rapaziada.

Bons tempos, aqueles, em que nada vala mais do que ser jovem.

No primeiro ano, pedi para ir para as oficinas de carpintaria, porque não tinha muito jeito para trabalhar o ferro e mesmo assim vi-me grego para fazer o cubo em cartolina. Depois fazer o porco em madeira foi outra carga de trabalhos.

Eu, que vinha do campo e trazia uma distinção no exame da quarta classe, não me entendi muito bem com a cidade e com a Escola e isso reflectiu-se nas notas do primeiro período, que foram tão más que nem as digo aqui. Mas desse primeiro ano, recordo uma vez que o Mestre Guerreiro me chamou e disse: toma lá dinheiro e vai comprar um maço de cigarros Português Suave. E ouve bem, não me apareças cá sem tabaco.

O Mestre, não sei se se lembram disso, andava sempre acompanhado de um rolo de cartão. E nesse dia eu não consegui encontrar o tabaco mas encontrei o cartão a deslizar pelas costas abaixo.

Entendi isso como um gesto carinhoso e amigo.

E hoje entenderia da mesma forma meu velho MESTRE. Com o senhor aprendi a outra face da vida e por isso lhe deixo um abraço forte, extensivo a todos os meus Mestres.
Deixo-vos com saudade.

João Brito Sousa

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

FALANDO DE...

FIGURAS ALGARVIAS

SIDÓNIO (AUTO RETRATO)


Sidónio José de Almeida nasceu na cidade de Faro a 10 de Julho de 1918 e estudou na Escola Técnica e Industrial. Começou por fazer desenhos e caricaturas dos seus amigos e de “figuras típicas do Algarve”.
Dedicou-se à caricatura, desenho, escultura, além de ter efectuado muitos trabalhos como medalhões e painéis de grandes dimensões.
Na evolução da sua obra, sente influências neo-realistas e surrealistas ao mesmo tempo.
Recordo o sidónio. Um grande amigo. Um dia, no Café Aliança, disse-lhe “faz a minha caricatura”. Tentou fazer mas não conseguiu. Mais tarde, no Jardim Manuel Bívar, por insistência minha, tentou de novo. “è pá não estou com inspiração”.
Tempos depois, no Circulo Cultural do Algarve, Já bastante surdo, pegou no caderno que sempre trazia com ele, sentou-se à minha frente, e passado pouco tempo, amarrotou a folha foi jogar para o cesto dos papeis, olhou para mim e disse “É pá não consigo, não tens cara de caricatura”
A obra dele, que mais me impressionou, é a do busto do Dr. Silva Nobre e que se encontra em frente onde o médico, grande democrata, tinha o seu consultório.
Sidónio, foi um grande artista, um Costeleta e um grande amigo
RC

GASTÃO CRUZ E OUTROS POETAS.


Fui dar uma volta pela obra de Gastão Cruz e fiquei deslumbrado com o que li. Deixo algumas ideias de gente da poesia, retiradas de um texto de GASTÃO CRUZ, que considero simplesmente fascinantes.

Podemos não nascer poetas mas temos a obrigação de, de vez em quando ler, um pouco de poesia e tentar percebê-la. Porque poesia é arte e, como tal, está em constante evolução.

A poesia tem a virtude de nos manter actualizados.

Tenho inveja dos poetas, disse Lobo Antunes.

A poesia de Gastão Cruz vem na linha de Carlos Oliveira, Herberto Hélder, Casimiro de Brito, Ruy Belo, Ramos Rosa, Eugénio de Andrade e de toda a poesia moderna contemporânea.

Para estes autores,: “O poeta é aquele que escolheu ter um ser através da sua linguagem. Isso pressupõe que a Linguagem possa dizer o ser.
Por essência, a poesia nunca duvidou disso, ou duvidou afirmando-se através dessa dúvida.”

Eugénio de Andrade afirma: “O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação”.

Também Sophia, numa das suas “Artes Poéticas”, diz: “A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas,
densa e compacta.”

Penso que, no Portugal do século XX, pouca gente escreveu sobre poesia como os próprios poetas. Melhor dizendo, poucos, além deles, falaram da poesia vivendo-a, isto é, habitando-a, para recuperar uma palavra, e uma ideia.

É certamente neste sentido que se tem dito que o estilo ensaístico de Eduardo Lourenço, quando fala de poesia, é o de um poeta.


Retirado de um texto de GASTÃO CRUZ.
Por João Brito Sousa

FALANDO DE...

Gastão Cruz

FIGURAS ALGARVIAS

ALGARVE

A luz amadurece as
pedras e os figos no lado dos caminhos
adoça as alfarrobas fende a casca
cinzenta das
amêndoas e desprende-as
varejamos
as que ficam presas de leve
aos ramos,
no armazém da casa amontoadas
descascar as
amêndoas o verão

Gastão Cruz
(Nasceu em Faro em 1941)
RC

sábado, 16 de janeiro de 2010

DO CORREIO

Alberto Marques da Silva



HOMENAGEM AO SENHOR “ MARMELADA “


Minha irmã me falou que tinha um Livro homenageando o Dr. Silva Nobre, escrito e autografado por Alberto Marques da Silva , um poeta que morou numa das Ruas perto da Estrada de Olhão , ( antigo posto da policia de Viação e Transito ) R. Teixeira Guedes antes de chegar á Rua Ataíde de Oliveira , era casado com uma Senhora que tinha sido professora .
Sabia que nessa esquina numa casa Amarela morava o Sr. Ferreira e família que veio de Paderne, assíduo freqüentador do S. Luis Parque e pai de colegas como o Gilberto , o Lelo a Eva Maria Pontes Ferreira também Costeleta , enquanto o Poeta morava numa casa em que tinha de subir 2 degraus ?

O nome de Silva Marques era meu conhecido talvez ligado a uma agência de transportes de carga existente na Av. do Hotel Eva , no entanto fiz uma pesquisa na net , na Defesa de Faro encontrei a Resposta : e acreditem encontrei precisamente uma das Figuras da cidade da nossa época o Sr. Marmelada !
Alcunha Proveniente da sua expressão jocosa sobre alguns filmes e mesmo de namoros na Bancada denominada de geral no cinema !

O marmelada foi uma figura inesquecível e que prestigiou nossa cidade , mesmo não tendo nascido em Faro, era, no entanto, considerado cidadão farense por afinidade e adopção,

Nasceu a 9 de Julho de 1898, em Chaves e faleceu em Lisboa a 9 de Outubro de 1977, embora tenha sido sepultado em Faro e ter deixado viúva, D. Adelina Fonseca, professora primária. Aliás, D. Adelina Fonseca, foi professora da esposa do signatário deste texto, na escola então existente no Beco do Xixo.
Alberto Marques da Silva, que os farenses tratavam carinhosamente por “Marmelada”, veio ainda em criança para Faro, pois o seu pai tinha sido nomeado director de finanças da nossa cidade.
Estudou no liceu de Faro e fez vida militar. Mais tarde, desempenhou funções como empresário na Companhia do Cine-Teatro Farense, de onde se reformou ainda em funções.
Como poeta publicou alguns títulos:

«Flores Sem Aroma»;
«Varanda dos Meus Sonhos»;
«Meu Coração Vai Falar»;
«Rosas do Meu Jardim»;
«Janela Azul»;
e «Versos de Amor e Saudade».


Também na Net pesquisando o Cine teatro farense encontrei de sua autoria esta quadra de inspiração premonitória:

O cravo flor tão singela
É minha flor preferida
Ponham-me um na lapela
Quando eu for p´rá outra vida




Saudações Costeletas
António Encarnação

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010


FUI À ESCOLA
.

Ao Diogo, que disse, escrevam mais. E obviamente para todos.

Eram 16 horas, quando virei à direita, vindo do Largo do Pé da Cruz em direcção à Biblioteca António Ramos Rosa em Faro, e as recordações começaram. A Escola Industrial e Comercial ali mesmo na minha frente, à esquerda, e na correnteza do passeio, no lado direito, o local do negócio Felizardo & Glorinha, de saudosíssima memória. Detive-me uns minutos no local, ora de frente ora de costas para a Escola, numa atitude religiosa, de respeito total por aquelas duas instituições sagradas, que representavam, uma, a cultura e o conhecimento (a Escola) e a outra, representante da entidade patronal, exigente, dura, comercial e comerciante, pessoal sempre atento às cobranças, voz de comando, cinco tostões de cigarros, por favor, etc e tal.
Indiscutivelmente, cada uma daquelas instituições tinha, connosco, uma relação de amor, que nós não nos apercebemos, não tivemos capacidade para o absorver, nem juízo, nem idade, nem nada para perceber isso.

Foi aí onde parei uns minutos, frente a esses dois modelos diferentes de nos formar para a vida, e aí me detive, silencioso e hirto, em posição de homenagem e respeito, perante aqueles templos sagrados, onde quase me apeteceu ajoelhar, sentindo mesmo uma dificuldade enorme em colocar-me, não atinando mesmo para que lado me havia de voltar, o mesmo será dizer, que tive dificuldades em certificar-me qual dos dois estabelecimentos teria sido o mais importante para mim, o que melhor desenvolveu o meu carácter, qual deles contribuiu em dose maior para o homem que sou, mesmo carregado dos defeitos que tenho.

De tal modo que ao olhar o edifício comercial, um gesto automático quase me levou a mão à algibeirinha pequena,que, naquele tempo tínhamos ao pé do cinto, cá em cima, onde guardávamos as moedas e daí tirar cinco tostões para adquirir três cigarros PARIS.
O Ti Felizardo foi o nosso Director da escola da vida, cujo estabelecimento nos forneceu algumas centenas de sandes de cavala a cinco tostões, lá vem o Manel Lima, cuidado com ele, como é hoje ó Manel e, dizendo-lhe isto, ia atrás um forte palmada de amizade, a escorregar pelo lombo, enquanto o Manel largava, um chiça patrão. E nesta aparente estúpida e agressiva relação, íamo-nos apercebendo, que a nossa Mãe às vezes não estava lá. Éramos nós e a vida. Nunca tivemos uma relação difícil com o empresário Felizardo, que assumiu honradamente o papel de nosso professor de aulas práticas de Noções de Comércio. Uma vez perguntou ele a um, sabes o que é uma letra? É um título de crédito pá…e o aluno, e eu a pensar que era um copo de cachaça.

Daqui a uns dias escreverei mais, porque é imperdoável não falar na nossa segunda Mãe, a Ti Glorinha, a Santa Glorinha.

Encontrei hoje em Quarteira, o Zé Morgado das Quatro Estradas, que trabalhou com o maior de todos, nos TAP, o nosso querido e saudoso Zé Guerreiro, que por sua vez foi colega do Zé Maganão no Instituto Industrial à Rua Buenos Aires, ao lado do senhor Fernando, o Gordo das sandes.

Tenho saudades da vida.

João Brito Sousa.

FALANDO DE...

Cinema no Algarve na primeira metade do Século XX

CINEATAS ALGARVIOS (Para quem gosta de cinema)


Armando de Miranda

"Armando de Miranda (1904-75), natural de Portimão, foi jornalista cinematográfico, director da revista espectáculo e realizador de trinta e uma obras entre documentários, curtas-metragens e longas-metragens.
Da sua vasta obra, apenas de filmes directamente ligados ao Algarve. Em 1940 realiza, no Alentejo, “Pão Nosso...”, filme sobre a obra dos algarvios Gentil Marques e Leão Penedo (argumentista de “Sonhar é Fácil” e “ Saltimbancos”). Em 1943 realiza “Aves de Arribação”, os exteriores são filmados na Praia da Rocha (Portimão) e Lagos, a Barlavento e, em Olhão e Faro, a Sotavento. Os interiores são
filmadas na novíssima produtora algarvia “Cinelândia”. No texto que Roberto Nobre escreveu para a inauguração do antigo Cineclube Olhanense (1956) pode ler-se: 10 “Um dos realizadores portugueses que mais filmes tem feito. (...), por exemplo, a atenção para os belos efeitos de paisagem marítima obtidos por Armando de Miranda, com as rochas em “Aves de Arribação”2 A narrativa deste filme gira à volta de um caso de espionagem.
“Aqui, Portugal”, de 1947, centra-se no folclore Português. O filme percorre as várias províncias portuguesas e culmina no Algarve, com corridinho.
Armando de Miranda realizou, também, alguns documentários sobre o Algarve, como é exemplo “Algarve Encantado” , de 1938, e “Algarve , Terra de Sonho”, de 1948."
RC
HEROIS ESQUECIDOS

Caro António Palmeiro

De onde em onde, contra o que se decidiu chamar de politicamente correcto, aparecem umas paginas, muita vezes apenas umas linhas, quase que a medo, que nos relatam o que foi o esforço da nossa geração em Africa. Geraram-se como que anticorpos a’ nossa historia recente. Altura ha’ em que me querem fazer um fora da lei porque defendi aquilo que fui ensinado e acreditava.Num PORTUGAL QUE ERA UNO E INDIVISIVEL DO MINHO A TIMOR.
O seu texto foi reconfortante em certo sentido.
Tememos chamar heróis a quem deu tudo o que tinha para dar, ate’a sua existência!
O senhor fê-lo. Obrigado em nome dos colegas que tombaram ou ficaram marcados para sempre.
A nossa escola contribuiu com a sua cota parte...e não foi pequena.
Moeda foi tambem regada pelo sangue de um grande costeleta e amigo.
Eusébio Silva, alferes de infantaria. Jovem mas que sabia o que queria da vida e o que a pátria esperava dele.
Numa noite de luar africano, o seu destacamento foi atacado uma vez mais. No meio da refrega um soldado sob seu comando foi ferido e ficou sem munições, Eusébio foi socorre-lo.Nao o chegou a fazer. Uma bala inimiga trespassou-lhe o coração. Caiu fulminado. Quem assistiu conta que com um sorriso nos lábios, quem o conheceu sabe que deve ser verdade. Era assim o Eusébio o sorriso acompanhava-o.
A pátria, nova, esqueceu-o. O seu nome nem consta na placa dos combatentes do ultramar com que a câmara de Loulé recorda os seus filhos caídos. Eusébio era de Querença.
Repousa hoje na sua cidade de adopção.
E houve alguns mais.
Um abraço
Diogo

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

FIGURAS ALGARVIAS

Álvaro de Campos (Caricatura de Almada Negreiros)

Eu

Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. —
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...

Álvaro de Campos

Poeta e Escritor, formou-se em Engenharia Naval - Nasceu em Tavira no dia 15 de Outubro de 1890

RC

VULTOS IGNORADOS DA NOSSA HISTÓRIA (II)

ALFERES MONTEIRO

José Monteiro, é mais um herói desconhecido e ignorado.
Filho do feitor do monte da Alpendurada, foi uma excepção relativamente aos jovens da sua idade. O patrão, dono da herdade, considerando a capacidade profissional do feitor, as suas qualidades pessoais, também uma dedicação à casa de longa data, resolveu patrocinar os estudos do filho do dedicado empregado. O rapaz era esperto e demonstrava ser inteligente.
Um dia chamou o senhor João e foram andando e conversando até à eira. A colheita tinha sido boa e as medas estavam sendo feitas pelo pessoal que carregava a trigo e a cevada da planície, para que, aí por volta do dia de Santa Maria a máquina viesse debulhar o cereal.
O senhor engenheiro Carlos, perguntou então ao senhor João.
- Oh tio João, o que o Zézinho vai fazer agora que acabou a quarta classe?
- Ainda nem pensei nisso senhor engenheiro. A irmã ajuda a mãe lá na lida da casa,
talvez o mande uns dias com o “moiral” das ovelhas para ele ir aprendendo.
- Escute lá, o garoto é inteligente, porque você não o manda estudar?
- O senhor engenheiro está mangando comigo, eu não tenho posses para isso. Tenho para ali uns cinco contos guardados, é verdade que a seara foi boa este ano e que a maquia vai melhorar um pouco, mas e se para o ano for fraco?
Depois a irmã é mais velha e não foi estudar, nem eu podia, não quero que um seja “doutor” e ela uma “Maria ninguém”, podem ser pobres e honrados, o senhor engenheiro sabe o que isso representa, para um homem como eu! E a conversa ficou por aqui!
Quatro horas depois o senhor João foi chamado à casa do patrão, trava-se então o seguinte diálogo:
- Oh tio João, sobre o assunto que falámos hoje de manhã eu estive a falar com minha esposa e como sabe não temos filhos, temos uma casa em Beja onde poucas vezes vamos, mas está comadre Júlia que toma conta de tudo, ficamos sempre na casa de Lisboa ou aqui no monte. Então o José vai para lá e faz companhia à comadre, ela trata dele e ele aproveita, faz a admissão e para ano vai para o Liceu.
- Patrão eu não sei se isso vai dar certo, mas se é assim que o senhor engenheiro quer, pois que seja.
Não se preocupe com as despesas, tudo o que ele precisar nós pagamos.
Assim foi, tratado como filho do patrão, passaram vários anos, o José vinha ao monte nas férias, matar saudades e a idade militar apanha-o já no 2º ano da Faculdade.
Um namoro e alguns desvios, com a consequente perda do ano e eis que o bom do José é incorporado na Escola de Oficiais em Mafra.
Curso tirado e eis o garboso, aspirante a oficial. Apesar da perda do ano e da obrigatoriedade da incorporação, era o orgulho do senhor João, da mãe e também do casal seu protector.
Alguns meses depois deu-se a inevitável, mobilização para o Ultramar, com a correspondente promoção a Alferes, na hora do embarque.
A partir daí temos então o nosso alferes Monteiro, um jovem inteligente e cheio de qualidades. Rigoroso sem excessos, honesto, incapaz de prejudicar fosse quem, e acima de tudo acérrimo defensor junto do comando da Companhia, dos homens do pelotão que comandava.
Era um homem do povo, conhecia a linguagem popular dos homens que comandava, era mais um entre eles.
Mas numa guerra, traiçoeira, tudo pode acontecer e aconteceu!
Numa “picada” e numa falha (mais comum do que se possa pensar) dos batedores, uma “mina” destruiu a viatura onde seguia o nosso alferes. Os militares tiveram uma reacção diferente da esperada e aquilo que poderia ser de desânimo, transforma-se em fúria e “varrem” a rajadas de metralhadora uma vasta área em redor do local; uma vez que os responsáveis pela armadilha ainda estavam por perto, as consequências foram devastadoras para eles. Mas voltemos ao “nosso alferes”:
De imediato, foi feita a chamada através do rádio, do pedido de socorro. Um helicóptero com um médico e um enfermeiro finalmente desponta no horizonte, como estávamos relativamente perto da base aérea de Mueda, no norte de Moçambique, a aeronave vinha devidamente escoltada, não fosse o diabo tecê-las.
Estava o jovem alferes José Monteiro, bastante mal, principalmente ao nível dos membros inferiores, as pernas completamente destruídas. É pois evacuado para Lourenço Marques e posteriormente para Lisboa. É substituído por alguém cujo nome não me lembro, o meu herói ERA o nosso alferes.
O tempo encarrega-se de mitigar as dores, não as cura definitivamente mas é preciso continuar e confesso, apesar de contar entre amigos este episódio, nunca mais procurei saber o destino do José Monteiro. Soube que tinha ficado confinado a uma cadeira de rodas, uma vez que foi amputado das pernas e nada mais.
Há uns 3 meses atrás ao ler uma reportagem sobre os sem abrigo de Lisboa, quase desmaiei ao reconhecer o “nosso alferes” nessa noite não consegui dormir, tive imensa dificuldade em acreditar no que via e depois de confirmar, em aceitar.
Sei que mendiga, num parque de estacionamento e recusa ajudas de amigos daquele tempo.
Pergunto:
Onde estará a condecoração recebida no 10 de Junho?
Terá a pensão que lhe é devida? Se não tem porquê?
Fiquei também a saber que uma grande maioria dos sem abrigo de Lisboa, foram militares, ex-combatentes das ex-colónias. O álcool e a droga são alívio para as suas dores, a companhia das suas noites mal dormidas e dos pesadelos que a cada noite se renovam com maior intensidade.
Não sei se foi uma guerra justa ou injusta, sei que a minha geração foi obrigada a sofrer na pele os seus efeitos e as suas consequências, mereciam um maior respeito por parte das entidades competentes, as mesmas entidades que fogem deste flagelo como se os seus portadores tivesse lepra e que certamente os consideram anti-heróis.
O mínimo que deve ser feito é a reposição da dignidade de todas estas pessoas. E não é preciso muito, só vontade para…
O dinheiro é fácil conseguir, qualquer “banquetezinho” que não se faça é receita suficiente para dignificar aqueles infelizes seres humanos.
MEUS SENHORES FOMOS OBRIGADOS

Esta história é verídica, os seus personagens são reais. O problema existe e é real.
Fictícios são os nomes das pessoas e os locais, por razões óbvias.

António Viegas Palmeiro

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

FIGURAS ALGARVIAS


Poeta Dr. Emiliano da Costa
Bailar na Rua

Bailar na rua. vem, porque não vens!?
Dizem que és triste, alegre montanheira,
Quando passas, no entanto, a vida inteira ..
Criptamentente a bailar nos armazéns!...

Tens o ritmo no sangue, tu doideias ...
Ah! Se o delírio de bailar te mata,
Porque não bailas no luar de prata,
Nas vigílias, nos adros das igrejas? ..

Rufa-te o coração como um tambor ...
Se ao fole, se ao foguete estralejante.
E ao “corridinho" és movimento e cor.

Saltemos p'ró ar livre ... Doido, mai-lo
Meu par improvisando o meu cossante
Vou botar a cantiga para o bailo.

Emiliano da Costa

Nasceu em Tavira no dia 3 de Dezembro de 1884.
Licenciou-se em medicina na Universidade de Coimbra, onde terminou o curso em 1914.
Dedicou-se a poesia e pintura.
Com 30 anos instalou-se em Estoi, onde exerceu a medicina até final da sua vida. (1 de Janeiro de 1968)
RC

VOGANDO NO ESPAÇO

Percorri o pátio das crianças
Flutuei sobre astros de luz
Como pássaro de asas aladas...
Como cavalo à rédea solta
Vagueei.... "
Vagueei sem me encontrar
Olhei o Lago da Memória
As nuvens aclararam...
Dissipou-se o nevoeiro...
Vagueei ao vento .
Voguei nas marés …
Envelheci!...
As ondas me levaram
Adornei-me sobre véus de espuma
Dissipou-se a bruma...
Já não vejo castelos edificados
Ao Luar de Prata
Renasci nas muralhas do silêncio
Voltei à Vida!
Ouvi a serenata
Vogando no espaço...

Maria José Fraqueza

AGENDA

Notícias da nossa cidade
A Junta de Freguesia da Sé-Faro, à semelhança do sucedido em anos transactos, irá realizar mais uma edição do Sé-Video, que este ano conta com a 11ª edição. Este evento pretende incentivar e promover o que de melhor se faz em vídeo, formato DVD.

O X I Sé-Video irá abranger as seguintes categorias:

Categoria A : Algarve-História, Tradição, Actualidade/15 minutos
Categoria B : Livre / 15 minutos
Categoria C : Animação / 1 minutos

A sessão publica e divulgação de prémios terá lugar no próximo dia 25 de Junho.

As incrições são efectuadas através do prenchimento da ficha de inscrição até dia 18 de Junho
RC
As Bocas do Mundo

Era uma vez um homem velho, que tinha na sua companhia um neto, filho de uma sua filha já falecida, como falecido era o marido desta. Teve o velho de ir a uma feira vender uma jumenta, e como o neto era rapazola, muito turbulento, não o quis deixar sozinho em casa, e levou-o consigo. O jumento era já adiantado em anos e o velho para o não estropiar resolveu levá-lo adiante, caminhando a pé avô e neto. Passa¬ram a um lugar onde estava muita gente a brincar na estrada.
- Olhem aqueles brutos! Vão a pé atrás do búrro que se não dá da tolice dos donos. O velho disse ao neto que se pusesse em cima do burro. Mais adiante passaram próximo de outros sujeitos que se puseram a dizer:
- O mariola do garoto montado, e o velho a pé; o que um tem de esperto tem o outro de bruto. O velho então mandou apear o neto e ele montou-se no burro. Mais adiante começaram a gritar:
- Olhem o velho se é manhoso! A pobre criança a pé e ele repim¬paso no burro.
- Salta para cima do burro, ordenou o velho ao neto. O garoto não esperou que o avô repetisse a ordem e lá foram os dois sobre o jumento. Andaram assim alguns passos, e logo viram muita gente sair-lhes à estrada, cheia de indignação e gritando ameaçadora:
- Infames! Criminosos! Canalhas! Matar o animalzinho com o peso de dois alarves, podendo ir a pé. O velho e a criança foram obrigados a descer do burro. Então disse o avô ao neto:
- É para que saibas o que são as línguas do mundo: preso por ter cão e preso por o não ter.

IN "Contos Tradicionais do Algarve" de Ataíde de Oliveira.

RC

AGENDA

Aniversário de Associados Costeletas
Fazem anos na segunda quinzena de Janeiro:
16-Isabel Maria Lopes Roberto Coelho; Maria da Conceição T. Santos Maurício; Maria Celina Pereira Nunes Inácio. 17-Fernando Lopes Oliveira; Maria de Lurdes Borges Mendes. 18-Alda Conceição Lopes; Manuel Afonso Ramires; José Sousa Pereira. 20-Irene Duarte Louro. 21-Fernando Guerreiro Mendonça; José Eduardo Sousa Maurício. 22–Manuel Ricardo Anselmo. 23-José Afonso Martins de Sousa; Carlos Alberto Brito Louro Rodrigues; Jorge Seromenho Florentino. 25-Honorato Manuel Gonçalves Viegas; Joaquim Carlos Rocha Vieira; Maria Paula de Sousa Cabecinha; Emilia de Jesus Roberto Cansado; Bartolomeu Neves Caetano. 27–Lutília Neto Gonçalves Rocha; Reinaldo da Encarnação Moreno. 28-Joaquim Pereira Alves. 29-José Martins Palma; Constância Isabel P. Vieira; Francisco Arnaldo G. Gonçalves; Manuel Duarte Silva; Eugénia Maria Figueira Guerreiro. 30-Aníbal Guerreiro Correia; Armando Martinho Romão. 31-Maria Manuela Dias Jesus Simão; José Luís Vieira Fernandes Soares; João Manuel Jacinto Mateus.
PARABÉNS A TODOS
RC

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Constituição e o mito.

Num dos programas da RTP o professor Hermano Saraiva ha’ dias atraz dissertava a’ sua inigualável maneira de comunicador sobre a constituição de 1820. Ouvi algo que so’ conhecia ao de leve ou pelo menos não tanto como deveria ou queria.
As coincidências existem e, passado poucos dias por puro acaso enquanto conduzia escutei um “talkshow”de perguntas e esclarecimentos numa das estacões de rádio aqui destas bandas. A certo ponto um ouvinte entra no programa, não sei se casualmente ou combinado com esta questão:-Porque razão a Constituição Americana estava escrita a um nível literário da sexta classe!
A resposta surpreendeu-me mas não deveria. E foi esta.
_Para que f.... da p... de advogado nenhum possa pegar no texto e lhe de' a volta que mais lhe interessar!
Isto e’ importantíssimo.Ha’ quem pense que a constituição politica e’ tudo. Que basta haver o texto formalizado para ter o sistema assegurado e ao abrigo de qualquer golpe.Ao ouvirmos os contitucionalistas da nossa praca,da' para ver que o documento da lei fundamental e' inflexivel e demasiado complexo.Entrelaca-se em meandros juridicos que so' eles entendem e, a' sua maneira
Nada nem ninguém se atreveria a destruir tão veneranda prosa que e’ o fundamento do Sistema politico. No fundo,e’ atribuir a umas paginas escritas e reescritas um valor sobrenatural nada compatível com o materialismo que lhe deu origem.
Ao consultarmos a nossa historia recente, da contituicao 1820 ate’ hoje, seguiram-se nove.Qual delas a mais idealista e menos realista.Sao sempre “eternas”e “gloriosas”.Sucederam-se sempre com rapidez, o que chega para provar que nenhuma interessava verdadeiramente a quem deveria servir. O povo. De facto a historia demonstra que essas paginas prenhes de capítulos e artigos caem em desuso, tornam-se absoletas,entram em contradições com a vida real do dia.a dia Em alguns casos mesmo antes de serem votadas como foi o caso da de 1976.So’ aguentam o embate do tempo quando são simples e flexíveis como e’ o caso da constituição americana, a mais velha e, ao mesmo tempo realista e flexivel.
Um abraco para todos e um pedido.....colaborem mais
Diogo

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Marina Cedro


AMO AGORA

Caros Amigos,
Acaba de sair o meu novo livro de poesia, Amo Agora, um texto muito intimista e erótico, desta vez escrito a 2 vozes (portanto bilingue) com a grande cantora argentina de tangos Marina Cedro (prevendo-se para mais tarde a leitura de alguns textos nos Concertos da Marina – um pouco por todo o mundo – e a produção de um CD). Capa, biografia e foto da Marina em anexo.
A edição é naturalmente restricta, apesar do seu custo ser baixíssimo e estará à venda apenas em poucas livrarias; podem porém ser feitos pedidos através do método indicado no blogue da Editora, as “4águas”, a saber: http://4aguaseditora.blogspot.com/
As saudações do
Casimiro.


Casimiro de Brito
Rua Emb. Martins Janeira, 15-6º.Esqº. 1750-097 Lisboa Portugal
Telefone - 351 309928481 * Portátil - 351 936268878
Site: http://www.casimirodebrito.no.sapo.pt/

Dois fragmentos de Amo Agora:

11
Ascendo
aos teus seios

Entro
no Paraíso
e depois afundo-me
num chão felino

No chão florido
do teu corpo
todo ele um seio
líquido
incandescente

Ardo e rio
inundado
por flores
especiarias

Iluminados
grãos de areia
que são mel
e sal
da vida


12
Desciendes
por mis cabellos
mis labios
mi cuerpo
desciendo
hasta tocar
tu sexo

Inundas mis horas
con tus manos
formas mi cuerpo

Escribo
con mi lengua
el preámbulo del
amor



MARINA CEDRO
cantora poeta pianista

Nacida em Buenos Aires, Argentina, Marina assume-se como autora, compositora e intérprete, numa expressão da escrita, da voz e do piano, em perfeita fusão. A sua “voz”, íntima e profunda, leva ao extremo a sua arte: primordial e nostálgica. No seu último álbum, Itinerario (2007) associa o Tango, o Jazz e a Poesia. O seu repertório compõe-se por obras musicais e literárias por si criadas bem como de autores como Piazzolla, Gainsburg, Expósito, Cortázar e Verlaine. Sempre a pulsação, na sua obra, da música, da poesia e da linguagem quotidiana. Na sua última criação, Amor a Dos (2008-2009) incorpora o gesto e a dança, reflectindo a identidade da mulher. Em 2009 interpretou a obra Manifestement, de Cie Yann Lhereux. Grava, com o grupo Yaraví, La Palabra Viva, homenagem a Atahualpa Yupanqui e interpreta a peça Más allá de cualquier zona prohibida, vida e obra de Alejandra Pizarnik. Tem dado recitais em vários países da Europa e da América. O seu trabalho mais recente é este poema erótico a duas vozes, com o poeta Casimiro de Brito. (www.marinacedro.com)


CASIMIRO DE BRITO
poeta ficcionista ensaísta

Nasceu em Loulé e publicou mais de 50 títulos, em Portugal e no estrangeiro. Dirigiu revistas literárias, esteve ligado a Poesia 61, desenvolvendo depois um percurso muito pessoal através de vários discursos inerentes a um mundo (e a uma vida pessoal) cheio de mudanças. Representado em 190 antologias e traduzido em 26 línguas. Actividade internacional intensa: leituras, festivais, conferências. Foi presidente da Association Européenne pour la Promotion de la Poésie e do P.E.N. Clube Português e é conselheiro da Associação Mundial de Haiku, de Tóquio. Tem traduzido poesia de várias línguas, sobretudo do japonês. Alguns prémios, entre eles: o Prémio da Imprensa Cultural Portuguesa 1966 (Jardins de Guerra); Prémio de Poesia da APE em 1981 (Labyrinthus); o Prémio Internacional Versilia, de Viareggio, para a "Melhor obra completa de poesia" (por Ode & Ceia, 1985); o Prémio de Poesia do P.E.N. Clube 1998 (Opus Affettuoso); o primeiro Prémio Internacional de Poesia Leopold Sédar Senghor, 2002, pela sua carreira literária, atribuído pela Académie Mondiale de Poésie (da Fundação Martin Luther King); o Prémio Europeu de Poesia Sibila Alleramo/Mario Luzi para o melhor livro de poesia publicado em Itália em 2004. Em 2008 com o Prémio Internacional Poeteka (Albânia). No mesmo ano foi agraciado pela Presidência da República com a Ordem do Infante D. Henrique. Várias obras em curso.
(www.casimirodebrito.no.sapo.pt)
RC

domingo, 10 de janeiro de 2010

Luís Fernando Verissmo é um escritor brasilero, bastante conhecido por suas crónicas e textos de humor, publicados diariamente em vários jornais.
É filho de Érico Verissimo renomado escritor, autor de romances como: Clarissa, Olhai os lirios do campo, Incidente em Antares e muitos outros.
Luis Fernando tem uma vasta obra de crónicas e contos, novelas e romances, cartuns. É também eximio saxofonista.

Pela actualidade do tema permito-me enviar para publicação a pérola que se segue.


António Palmeiro

Arvore Genealógica

- Mãe, vou casar!

- Jura, meu filho ?! Estou tão feliz ! Quem é a moça ?

- Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é Murilo.

- Você falou Murilo... Ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico?

- Eu falei Murilo. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa?

- Nada, não.. Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.

- Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo...

- Problema ? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora... Só isso.

- Você vai ter uma nora. Só que uma nora... Meio macho. Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea...
- E quando eu vou conhecer o meu. A minha... O Murilo ?

- Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido.

- Tá ! Biscoito... Já gostei dele... Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui ?

- Por quê ?

- Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência.

- Você acha que o Papai não vai aceitar ?

- Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver... Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade... E olha que espetáculo: as duas metades com bigode.

- Mãe, que besteira ... Hoje em dia ... Praticamente todos os meus amigos são gays.

- Só espero que tenha sobrado algum que não seja... Pra poder apresentar pra tua irmã.

- A Bel já tá namorando.

- A Bel? Namorando ?! Ela não me falou nada... Quem é?

- Uma tal de Veruska.

- Como?

- Veruska...

- Ah !, bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska.

- Mãe !!!...

- Tá..., tá..., tudo bem... Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou ter um neto...

- Por que não ? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozóides. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.

- Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?

- Quando ele era hétero... A Veruska.

- Que Veruska ?

- Namorada da Bel...

- "Peraí". A ex-namorada do teu atual namorado... E a atual namorada da tua irmã. Que é minha filha também... Que se chama Bel. É isso? Porque eu me perdi um pouco...

- É isso. Pois é... A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero.

- De quem ?

- Da Bel.

- Mas . Logo da Bel ?! Quer dizer então... Que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska...

- Isso.

- Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel.

- Em termos...

- A criança vai ter duas mães : você e o Biscoito.E dois pais: a Veruska e a Bel.

- Por aí...

- Por outro lado, a Bel...,além de mãe, é tia... Ou tio.... Porque é tua irmã.

- Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska... Com o óvulo da Bel. A gente só vai trocar.

- Só trocar, né ? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o ventre da Veruska.

- Exato!

- Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi...

- Entendeu o quê?

- Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!

- Que swing, mãe?!!....

- É swing, sim! Uma troca de casais... Com os óvulos e os espermatozóides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra...

- Mas..

- Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior... Com incesto no meio...

- A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso...

- Sei!!!... E quando elas quiserem ter filhos...

- Nós ajudamos.

- Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozóide... A única coisa que eu entendi é que...

- Que.. ?

- Fazer árvore genealógica daqui pra frente... vai ser dificil


(Luiz Fernando Veríssimo )

Impossível resistir ao impulso, depois de ler, de partilhar com todos os costeletas!
Onde seria que eu tomei conhecimento de uma história parecida com esta?
Vou tentar lembrar-me.
António Palmeiro

O SONHO DOS RATOS

( Nova velha fábula)


Era uma vez um “bando” de ratos que vivia num buraco do assoalho de uma casa velha.
Havia ratos de todos os tipos: - grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, do campo e da cidade. Mas ninguém ligava para as diferenças, porque todos estavam irmanados num sonho comum.
- Um queijo enorme, amarelo, com um aroma delicioso, bem perto dos seus narizes.
Comer o queijo seria a suprema felicidade…
Bem perto é modo de dizer. Na verdade o queijo estava muito longe, porque entre ele e os ratos estava um gato…
O gato era malvado, tinha dentes afiados e nunca dormia. Por vezes fingia dormir.
Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco para que o gato desse um pulo e … era uma vez um ratinho!
Os ratos odiavam o gato. Quanto mais o odiavam mais irmãos se sentiam.
O ódio a um inimigo comum que os tornava cúmplices de um mesmo desejo: - queriam que o gato morresse ou sonhavam com um cão…
Como nada pudessem fazer, reuniram-se para conversar.
Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem para quem) e chegaram mesmo a escrever livros com a critica filosófica dos gatos.
Diziam que um dia os gatos seriam abolidos e que todos seriam iguais “quando se estabelecer a ditadura dos ratos” diziam “então todos seremos felizes”…
- O queijo é grande e bastante para todos, dizia um.
- Socializaremos o queijo, dizia outro.
Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções. Era comovente tanta fraternidade. Como seria bonito quando o gato morresse! Sonhavam…
Nos seus sonhos comiam o queijo.
E, quanto mais comiam, mais ele crescia. Porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados; não diminuem, crescem sempre.
E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando:
- “Ao queijo já!” …
Sem que ninguém pudesse explicar como, o facto é que, ao acordarem numa bela manhã, o gato tinha desaparecido.
O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastava dar uns poucos passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente em redor, aquilo podia ser uma armadilha do gato. Mas não era.
O gato tinha desaparecido mesmo. Chegara o dia glorioso, e dos ratos surgiu um brado retumbante de alegria.
Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum. Foi então que a transformação aconteceu.
Bastou a primeira dentada.
Compreenderam, de repente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados;
Quando comidos, em vez de crescer diminuem.
Assim, quanto maior o número de ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um.
Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem inimigos.
Olhavam . cada um para a boca dos outros, para ver quanto do queijo tinham comido. E os olhares enfureceram-se, arreganharam os dentes, esqueceram-se do gato. Eram seus próprios inimigos.
A luta começou:
Os mais fortes expulsaram os mais fracos a dentadas. E acto contínuo, começaram a lutar entre si. Alguns ameaçaram mandar chamar o gato, alegando que só assim a ordem seria estabelecida.
O projecto de socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos:
“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono”.
Mas como rato algum jamais abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar esperando …
Os ratinhos magros e fracos dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que havia acontecido.
O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo, pareciam mesmo o gato, o olhar malvado, os dentes à mostra.
Os ratos magros não conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora.
RATO = GATO
Os ratos fortes tornavam-se cada vez mais fortes. Diziam mentiras para enganar os outros ratos.
Os ratos fracos acreditavam nas mentiras por ignorância ou por medo. Por medo muitos ratos fracos defendiam os ratos fortes, na esperança de ganhar alguma migalha de queijo.
Os ratos fortes criaram impostos. Precisavam de dinheiro para poder ficar mais fortes e assim poder cuidar do resto do queijo.
Precisavam de mais impostos, porque só assim poderiam cuidar da saúde dos ratos mais fracos.
Todo rato que fica dono do queijo transforma-se em gato.
Não é por acaso que os nomes são tão parecidos.

Autor: Rubem Alves (escritor)

“Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos
fragmentos de futuro em que a alegria é servida como
sacramento, para que as crianças aprendam que o
mundo pode ser diferente. Que a escola,
ela mesma, seja um fragmento do
futuro…”