sexta-feira, 20 de março de 2026

CRÓNICA DE FARO JOÃO LEAL UMA CIDADE. DOIS ESCRITOS. - A MOAGEM - D. JOÃO III Dois temas, ao invés da habitual temática única, preenchem o escrito desta semana da nossa Crónica. São ambos de idêntica importância para a capital sulina, «cidade em quarto crescente», como escreveu algures o nosso saudoso «Márinho» (Mário Zambujal) nestas mesmas colunas. Referimo-nos a: 1 - MOAGEM - foi demolido o icónico imóvel da «Moagem», entre as ruas Miguel Bombarda (onde nasci) e a da Moagem, por onde circulavam composições ferroviárias, transportando o trigo em grão, para ser transformado em farinha. Era isto nos tempos em que se dizia e aprendia na escola que «O Alentejo é o celeiro de Portugal». E era, ao invés de hoje, um verdadeiro celeiro. Ali vai surgir uma ampla urbanização «Anda Mar», comportando para além de 200 apartamentos, de todas as tipologias, para lá de outros serviços, que nos dizem estar concluído em 2029. Recorda-nos, sobremodo, do saboroso e fresco pão, que todas as manhãs íamos lá buscar e cujo «contrapeso» raramente chegava a casa, pois que era tragado no caminho. Era nos tempos em que quando o pão subia, tinha de pesar l kg, senão vinho o chamado «contra peso» para atingir as 1000 gramas. Gostaríamos de saber, pois desconhecemos de todo o projecto da Urbanização «Anda Mar», se na mesma figura algum a referência ao antigo imóvel da Moagem, um ícone da cidade capital sulina. 2 - Dom João III De há muito que Faro tem uma dívida de gratidão para com a veneranda memória do Rei D. João III, «O Piedoso» pois foi este monarca da Casa de Avis que assinou o documento régio elevando a então Vila a cidade, o que amplamente se justificou e abriu o caminho à futura capitalidade do então Reino dos Algarves. Agora consta-nos que desta feita é que é. Nem uma rua ostenta o nome do herdeiro de D. Manuel I «O Venturoso». Mas vai haver o monumento só que a sua falada localização não nos parece a mais indicada. Fala-se de um recanto junto no Arco do Repouso, já em pleno Largo de São Francisco. É certo que se situa ainda e de algum modo na histórica zona da «Vila a Dentro». Mas assim a modos que escondido? Porque não se escolhe uma zona mais centralizada condigna com a homenagem a prestar? Nós optávamos pela Praça da Liberdade (no vulgo a Pontinha), onde existe, frente à sede da CCRDA, espaço dimensionalidade proporcionado e com uma maior dignidade.

sexta-feira, 13 de março de 2026

CRÓNICA DE FAROJOÃO LEAL ADEUS, «MÁRINHO»! Esta é uma crónica triste, tão escura e tão triste quanto o luto e o pesar que me vai na alma. Um escrito que nunca pensara escrever, mas que é de um realismo atroz e pesado. Ao acordar uma voz, como sempre meiga, filial e suave veio dar-me a trágica notícia: «A TV acaba de noticiar a morte do teu amigo Mário Zambujal!». Um desgosto profundo me abalou ante a partida para o Eterno do sempre amigo «Márinho», uma amizade com mais de 8 décadas e que começara expontânea, como todas as que vêm da infância quando ele veio, do seu Alentejo Natal (concelho de Moura) para Faro acompanhando a família já que o saudoso pai, um companheirão mas de uma grande rectidão aqui fora colocado em funções oficiais. Veio morar na zoa na Ribeira, em plena Avenida da República, num prédio de 1º andar hoje substituído por um grande imóvel, quase frente ao Posto Médico da CP (onde existe uma clónica veterinária), quando aquela artéria ainda possuía as verdejantes palmeiras. O «mano Chico» (Francisco Zambujal, um dos maiores caricaturistas portugueses de sempre) viera também com os pais, não nos recordando se a saudosa «Fátinha» já era viva ou não. As escolas Serpa Pinto e Tomás Cabreira foram pontos seguintes de uma íntima convivência, que se prolongaria depois pelos convívios no desaparecido café «A Brasileira» e nas colunas deste semanário onde assinámos, anos a fio, a «Crónica de Faro», a quando da ida do saudoso poeta louletano Casimiro de Brito (um dos nomes maiores da poesia portuguesa dos séculos XX e XXI) para «terras estrangeiras». Mantivemos esta secção, ainda hoje vivente, além do signatário, prestigiados jornalistas, como Encarnação Viegas, Mário Zambujal, dr. Rocheta Cassiano, Carlos Martins e outros. Depois foi a ida do «Márinho» para Lisboa o jornalismo profissional (onde atingiu o lugar de Subdirector do «Diário de Noticias» e a escrita de livros que são verdadeiros «best sellers», com adaptação ao cinema e televisão. Contava 90 anos de idade que completara a 5 de Março e deixa histórias, milhentas histórias por contar, entre as quais a do aparecimento do jornal «O Camarada». Foi a quando de uma suspensão que o sempre bondoso director da Tomaz Cabreira, dr. Fernando Moreira Ferreira aplicara ao falecido camarada na sequência de mais uma diatribice da famosa «2ºano 4ª turma do Curso Geral de Comércio» (de onde já faleceram para além de outros recordados o Franklim, o Clérigo, o Chico Zambujal, o Jacinto e tantos mais). O «Márinho» foi impedido de sair de casa durante a suspensão e o jornal fazia-se com as valiosas gravuras do «Mano Chico» e os escritos eram do suspenso ou enviadas pela malta. Morreu o Mário Zambujal! que luto e que tristeza! A última vez que nos vimos foi num almoço anual dos «costeletas» e onde o saudoso amigo viera com o grupo de Lisboa (Júlio Piloto, Alfredo Pedro, José Félix e outros). Um dia bem triste em que escrevo esta «Crónica». Adeus, «Márinho», até um destes dias, que não o serão por muitos!