6ª De uma série de
boas leituras
De autores nacionais
IN EÇA DE QUEIRÓS
SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA
(...)
Macário estava então na plenitude do amor e da alegria.
Via o fim da sua vida preenchido, completo, radioso. Estava quase sempre em casa
da noiva, e um dia andava-a acompanhando, em compras, pelas lojas. Ele mesmo
lhe quisera fazer um pequeno presente, nesse dia. A mãe tinha ficado numa
modista, num primeiro andar da Rua do Ouro, e eles tinham descido,
alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo prédio, na loja.
O dia estava de Inverno, claro, fino, frio, com um grande céu azul-ferrete,
profundo, luminoso, consolador.
- Que bonito dia! - disse Macário.
E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do
passeio.
- Está! - disse ela. - Mas podem reparar, nós sós...
- Deixa, está tão bom...
- Não, não.
E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives.
Estava apenas um caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.
Macário disse-lhe:
- Queria ver anéis.
- Com pedras - disse Luísa - e o mais bonito.
- Sim, com pedras - disse Macário. - Ametista, granada. Enfim, o melhor.
E, no entanto, Luísa ia examinando as montras forradas de veludo azul, onde reluziam
as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares de camafeus, os anéis
de armas, as finas alianças, frágeis como o amor, e toda a cintilação da pesada
ourivesaria.
- Vê, Luísa - disse Macário.
O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balcão, em cima do vidro da
montra, um reluzente espalhado de anéis de ouro, de pedras, lavrados,
esmaltados; e Luísa, tomando-os e deixando-os com as pontas dos dedos, ia-os
correndo e dizendo:
- É feio. É pesado. É largo.
- Vê este - disse-lhe Macário.
Era um anel de pequenas pérolas.
- É bonito - disse ela. - É lindo!
- Deixa ver se serve - disse Macário.
E tomando-lhe a mão, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo, e ela
ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.
- É muito largo - disse Macário. - Que pena!
- Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto amanhã.
- Boa ideia - disse Macário - sim senhor. Porque é muito bonito. Não é verdade?
As pérolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E estes brincos? -
acrescentou, indo ao fim do balcão, a outra montra. - Estes brincos com uma
concha?
- Dez moedas - disse o caixeiro.
E, no entanto, Luísa continuava examinando os anéis, experimentando-os em todos
os dedos, revolvendo aquela delicada montra, cintilante e preciosa.
Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito pálido, e afirmou-se em Luísa,
passando vagarosamente a mão pela cara.
- Bem - disse Macário, aproximando-se - então amanhã temos o anel pronto. A que
horas?
0 caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário.
- A que horas?
- Ao meio-dia.
- Bem, adeus - disse Macário. E iam sair. Luísa trazia um vestido de lã azul,
que arrastava um pouco, dando uma ondulação melodiosa ao seu passo, e as suas
mãos pequeninas estavam escondidas num regalo branco.
- Perdão! - disse de repente o caixeiro.
Macário voltou-se.
- 0 senhor não pagou.
Macário olhou para ele gravemente.
- Está claro que não. Amanhã venho buscar o anel, pago amanhã.
- Perdão! - disse o caixeiro. - Mas o outro...
- Qual outro? - disse Macário com uma voz surpreendida, adiantando-se para o
balcão.
- Essa senhora sabe – disse o caixeiro. - Essa senhora sabe.
Macário tirou a carteira lentamente.
- Perdão, se há uma conta antiga...
O caixeiro abriu o balcão, e com um aspecto resoluto:
- Nada, meu caro senhor, é de agora. É um anel com dois brilhantes que aquela
senhora leva.
- Eu! - disse Luísa, com a voz baixa, toda escarlate.
- Que é? Que está a dizer?
E Macário, pálido, com os dentes cerrados, contraído, fitava o caixeiro colericamente.
O caixeiro disse então:
- Essa senhora tirou dali um anel. - Macário ficou imóvel encarando-o. - Um
anel com dois brilhantes. Vi perfeitamente. - O caixeiro estava tão excitado,
que a sua voz gaguejava, prendia-se espessamente. - Essa senhora não sei quem
é. E tirou-o dali...
Macário, maquinalmente, agarrou-lhe no braço, e voltando-se para Luísa, com a
palavra abafada, gotas de suor na testa, lívido:
- Luísa, dize... - Mas a voz cortou-se-lhe.
- Eu... - disse ela. Mas estava trémula, assombrada, enfiada, descomposta.
E tinha deixado cair o regalo ao chão.
Macário veio para ela, agarrou-lhe no pulso fitando-a: e o seu aspecto era tão
resoluto e tão imperioso, que ela meteu a mão no bolso, bruscamente, apavorada,
e mostrando o anel:
- Não me faça mal - disse, encolhendo-se toda.
- Macário ficou com os braços caídos, o ar abstracto, os beiços brancos; mas de
repente, dando um puxão ao casaco, recuperando-se, disse ao caixeiro:
- Tem razão. Era distração. Está claro! Esta senhora tinha-se esquecido. É o
anel. Sim, sim, senhor, evidentemente.... Tem a bondade. Toma, filha, toma.
Deixa estar, este senhor embrulha-o. Quanto custa?
- Abriu a carteira e pagou.
Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os beiços com o lenço,
deu o braço a Luísa e dizendo ao caixeiro: «Desculpe, desculpe», levou-a,
inerte, passiva, extinta e aterrada.
Deram alguns passos na rua. Um largo sol aclarava o génio feliz: as seges
passavam, rolando ao estalido do chicote: figuras risonhas passavam,
conversando: os pregões ganiam os seus gritos alegres: um cavalheiro de calção
de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a rua estava cheia,
ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.
- Macário ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma esquina.
Tinha o braço de Luísa passado no seu; e via-lhe a mão pendente, ora de cera,
com as veias docemente azuladas, os dedos finos e amorosos: era a mão direita,
e aquela mão era a da sua noiva! E, instintivamente, leu o cartaz que anunciava
para essa noite, «Palafoz em Saragoça».
De repente, soltando o braço de Luísa, disse-lhe baixo:
- Vai-te.
- Ouve!... - Disse ela, com a cabeça toda inclinada.
- Vai-te. - E com a voz abafada e terrível: - Vai-te.
Olha que chamo. Mando-te para o Aljube. Vai-te.
- Mas ouve, Jesus - disse ela.
- Vai-te! - E fez um gesto, com o punho cerrado.
- Pelo amor de Deus, não me batas aqui - disse ela, sufocada.
- Vai-te, podem reparar. Não chores. Olha que veem. Vai-te!
E chegando-se para ela disse baixo:
- És uma ladra!
E voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o chão com a bengala.
À distância, voltou-se: ainda viu, através dos vultos, o seu vestido azul.
Como partiu nessa tarde para a província, não soube mais daquela rapariga
loura.
Um arranjo e digitalização de Roger. Espero que tenham gostado.