quinta-feira, 9 de julho de 2020



7ª de uma série de boas leituras
De autores nacionais.

IN LUÍS DE CAMÕES



O Fogo de Santelmo
A Tromba Marítima




(...)
18 «Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por santo,
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e cousa, certo, de alto espanto,
Ver as nuvens, do mar com largo cano,
Sorver as altas águas do Oceano.

19 «Eu o vi certamente (e não presumo
Que a vista me enganava): levantar-se
No ar um vaporzinho e sutil fumo
E, do vento trazido, rodear-se;
De aqui levado um cano ao Pólo sumo
Se via, tão delgado, que enxergar-se
Dos olhos facilmente não podia;
Da matéria das nuvens parecia.

20 «Ia-se pouco e pouco acrecentando
E mais que um largo masto se engrossava;
Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
Os golpes grandes de água em si chupava;
Estava-se co as ondas ondeando;
Em cima dele ua nuvem se espessava, 
Fazendo-se maior, mais carregada,
Co cargo grande d' água em si tomada.




Um arranjo e digitalização de Roger.

quarta-feira, 8 de julho de 2020



6ª De uma série de boas leituras
De autores nacionais



IN EÇA DE QUEIRÓS
SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA
(...)
Macário estava então na plenitude do amor e da alegria.
Via o fim da sua vida preenchido, completo, radioso. Estava quase sempre em casa da noiva, e um dia andava-a acompanhando, em compras, pelas lojas. Ele mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente, nesse dia. A mãe tinha ficado numa modista, num primeiro andar da Rua do Ouro, e eles tinham descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo prédio, na loja.

O dia estava de Inverno, claro, fino, frio, com um grande céu azul-ferrete, profundo, luminoso, consolador.

- Que bonito dia! - disse Macário.
E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.
- Está! - disse ela. - Mas podem reparar, nós sós...

- Deixa, está tão bom...

- Não, não.

E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives.

Estava apenas um caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.

Macário disse-lhe:

- Queria ver anéis.

- Com pedras - disse Luísa - e o mais bonito.

- Sim, com pedras - disse Macário. - Ametista, granada. Enfim, o melhor.

E, no entanto, Luísa ia examinando as montras forradas de veludo azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares de camafeus, os anéis de armas, as finas alianças, frágeis como o amor, e toda a cintilação da pesada ourivesaria.

- Vê, Luísa - disse Macário.

O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balcão, em cima do vidro da montra, um reluzente espalhado de anéis de ouro, de pedras, lavrados, esmaltados; e Luísa, tomando-os e deixando-os com as pontas dos dedos, ia-os correndo e dizendo:

- É feio. É pesado. É largo.

- Vê este - disse-lhe Macário.

Era um anel de pequenas pérolas.

- É bonito - disse ela. - É lindo!

- Deixa ver se serve - disse Macário.

E tomando-lhe a mão, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo, e ela ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.

- É muito largo - disse Macário. - Que pena!

- Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto amanhã.

- Boa ideia - disse Macário - sim senhor. Porque é muito bonito. Não é verdade? As pérolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E estes brincos? - acrescentou, indo ao fim do balcão, a outra montra. - Estes brincos com uma concha?

- Dez moedas - disse o caixeiro.

E, no entanto, Luísa continuava examinando os anéis, experimentando-os em todos os dedos, revolvendo aquela delicada montra, cintilante e preciosa.

Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito pálido, e afirmou-se em Luísa, passando vagarosamente a mão pela cara.

- Bem - disse Macário, aproximando-se - então amanhã temos o anel pronto. A que horas?

0 caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário.

- A que horas?

- Ao meio-dia.

- Bem, adeus - disse Macário. E iam sair. Luísa trazia um vestido de lã azul, que arrastava um pouco, dando uma ondulação melodiosa ao seu passo, e as suas mãos pequeninas estavam escondidas num regalo branco.
- Perdão! - disse de repente o caixeiro.
Macário voltou-se.

- 0 senhor não pagou.

Macário olhou para ele gravemente.

- Está claro que não. Amanhã venho buscar o anel, pago amanhã.

- Perdão! - disse o caixeiro. - Mas o outro...

- Qual outro? - disse Macário com uma voz surpreendida, adiantando-se para o balcão.

- Essa senhora sabe – disse o caixeiro. - Essa senhora sabe.

Macário tirou a carteira lentamente.

- Perdão, se há uma conta antiga...

O caixeiro abriu o balcão, e com um aspecto resoluto:

- Nada, meu caro senhor, é de agora. É um anel com dois brilhantes que aquela senhora leva.

- Eu! - disse Luísa, com a voz baixa, toda escarlate.

- Que é? Que está a dizer?

E Macário, pálido, com os dentes cerrados, contraído, fitava o caixeiro colericamente.

O caixeiro disse então:

- Essa senhora tirou dali um anel. - Macário ficou imóvel encarando-o. - Um anel com dois brilhantes. Vi perfeitamente. - O caixeiro estava tão excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se espessamente. - Essa senhora não sei quem é. E tirou-o dali...

Macário, maquinalmente, agarrou-lhe no braço, e voltando-se para Luísa, com a palavra abafada, gotas de suor na testa, lívido:

- Luísa, dize... - Mas a voz cortou-se-lhe.

- Eu... - disse ela. Mas estava trémula, assombrada, enfiada, descomposta.

E tinha deixado cair o regalo ao chão.
Macário veio para ela, agarrou-lhe no pulso fitando-a: e o seu aspecto era tão resoluto e tão imperioso, que ela meteu a mão no bolso, bruscamente, apavorada, e mostrando o anel:

- Não me faça mal - disse, encolhendo-se toda.

- Macário ficou com os braços caídos, o ar abstracto, os beiços brancos; mas de repente, dando um puxão ao casaco, recuperando-se, disse ao caixeiro:

- Tem razão. Era distração. Está claro! Esta senhora tinha-se esquecido. É o anel. Sim, sim, senhor, evidentemente.... Tem a bondade. Toma, filha, toma. Deixa estar, este senhor embrulha-o. Quanto custa?

- Abriu a carteira e pagou.

Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os beiços com o lenço, deu o braço a Luísa e dizendo ao caixeiro: «Desculpe, desculpe», levou-a, inerte, passiva, extinta e aterrada.

Deram alguns passos na rua. Um largo sol aclarava o génio feliz: as seges passavam, rolando ao estalido do chicote: figuras risonhas passavam, conversando: os pregões ganiam os seus gritos alegres: um cavalheiro de calção de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a rua estava cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.

- Macário ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma esquina. Tinha o braço de Luísa passado no seu; e via-lhe a mão pendente, ora de cera, com as veias docemente azuladas, os dedos finos e amorosos: era a mão direita, e aquela mão era a da sua noiva! E, instintivamente, leu o cartaz que anunciava para essa noite, «Palafoz em Saragoça».

De repente, soltando o braço de Luísa, disse-lhe baixo:
- Vai-te.

- Ouve!... - Disse ela, com a cabeça toda inclinada.

- Vai-te. - E com a voz abafada e terrível: - Vai-te.
Olha que chamo. Mando-te para o Aljube. Vai-te.

- Mas ouve, Jesus - disse ela.

- Vai-te! - E fez um gesto, com o punho cerrado.

- Pelo amor de Deus, não me batas aqui - disse ela, sufocada.

- Vai-te, podem reparar. Não chores. Olha que veem. Vai-te!

E chegando-se para ela disse baixo:

- És uma ladra!

E voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o chão com a bengala.

À distância, voltou-se: ainda viu, através dos vultos, o seu vestido azul.

Como partiu nessa tarde para a província, não soube mais daquela rapariga loura.

Um arranjo e digitalização de Roger. Espero que tenham gostado.

INFORMANDO - João Leal



TURISMO DO ALGARVE EM NOTÍCIA

O Presidente da República deslocou-se ao Algarve para analisar problemas da presente conjuntura turística e presidiu a um jantar de trabalho em Monte Gordo, em que participaram autarcas e dirigentes hoteleiros,
O cais fluvial de Guerreiros do Rio (Alcoutim), no Rio Guadiana, sofreu importantes obras de restauro e beneficiação que permitem um melhor acolhimento a quantos praticam o turismo e navegação naquela via marítima. As obras foram executadas pela Docapesca.  
 A Câmara Municipal de Silves instalou na Avenida Beira Mar, em Armação de Pêra, um sistema de som de linha, que funcionará até finais de Agosto, para operar momentos de animação de transmissão de mensagens de sensibilização.
Na Quinta do Lago encontram-se concluídos 132 apartamentos de luxo, com spa, ginásio, piscinas interior e exterior e campos de golfe e ténis, no complexo turístico residencial «Wyndham Grand Algarve Residence», num investimento de um fundo norte - americano presente em 80 países.
A taxa de ocupação global / média na hotelaria algarvia foi, no mês de Junho, de 10,3%, o que representa uma perda de quase 70 pontos percentuais em relação ao mesmo mês de 2019. Mais de 80% das dormidas foram de portugueses. As vendas desceram 81,2%.
A Câmara Municipal de Albufeira adquiriu para vigiar áreas não concessionadas uma viatura 4X4 e uma embarcação, ambas dotadas com sofisticados meios de socorro e de comunicação.
A Assembleia Municipal de Lagos aprovou o «Plano de Intervenção no Monte da Charneca», uma área de monte rural tradicional no Barão de São João, destinada a espaço de turismo rural e que comporta uma capela da autoria do arquiteto Siza Vieira.
As quebras no turismo algarvio fizeram triplicar o desemprego em mais de 200%, com 28 mil cidadãos a perderem os seus postos de trabalho, dos quais quase 28% são estrangeiros.

                                                      JOÃO LEAL 

«LIVROS QUE AO ALGARVE IMPORTAM»





«EM TODOS OS SENTIDOS»
                                                                  LÍDIA JORGE

                    É um dos mais cotados nomes da literatura europeia contemporânea a escritora algarvia Lídia Jorge, que ora publicou mais um livro da sua vasta bibliografia. Trata-se de «Em todos os sentidos», o qual reúne as 41 crónicas que leu aos microfones da Antena 2, ao longo de um ano inteiro, sobre os mais diversos temas. Lídia Jorge afirma no início da obra: «Como não pudemos vencer o Tempo, escrevemos textos que o desafiam a que chamamos crónicas».
                   Natural de Boliqueime, onde nasceu a 18 de Junho de 1946, Lídia Jorge, que é doutorado «honoris causa» pela Universidade do Algarve é autora entre outros de «O dia dos prodígios», «Cais das Merendas» e «A costa dos murmúrios», traduzidos em vários idiomas.
                   Muitos são os prémios (Jean Monet de Literatura - Escritor Europeu do Ano - 2000; Grande Prémio de Literatura - 2019), bem como as condecorações que lhe têm sido atribuídas.
                  «Em todos os sentidos» foi editado pela Dom Quixote.

                                                     JOÃO LEAL

terça-feira, 7 de julho de 2020

CRÓNICA DE FARO JOÃO LEAL




O MEU AMIGO JOÃO PARRA
            Numa destas manhãs soalheiras a primeira notícia que me chegou foi a morte do ex-internacional júnior e meu saudoso colega o João Parra. De seu nome completo João Teófilo Salero Parra, tinha 83 anos, pois nascera em Olhão a 8 de Março de 1937 (Dia de João de Deus e daí talvez a razão do seu nome) e foi meu colega de carteira, o «parceiro» como então se dizia, no 1º ano 4ª turma da recém - criada Escola Técnica Elementar de Serpa Pinto. Era o nº 10 e eu o nº 9e ficávamos numa carteira dupla na fila da frente. Bons professores os houvemos, para além do Director, o Pintor Jorge Escalço Valadas, o Dr. José Mealha (pai do meu falecido colega jornalista de igual nome e um acérrimo sportinguista), a Dra. Maria da Conceição Sintra (mulher do psiquiatra Dr. Manuel da Silva), o Eng. Diamantino Piloto (artista, interventor cívico, nascido em Olhão), o Cónego Vieira Falé (que faleceu pároco da Cidade Cubista), a D. Dinorah Pascoal, a D. Suzete..., o Prof. Américo (uma permanente saudade!) e os mestres Mário Pereira, Nicolau, Zé de Brito, João Mateus...
        Nos anos primeiros da década de 1950, juntamente com os também «costeletas» (alunos da Escola Tomás Cabreira), Manuel João Poeira e Nuno Agostinho, o João, como sempre nos tratámos, envergou a camisola de Portugal na primeira presença num Mundial de Juniores, disputado na Alemanha. Foi um festival a recepção havida na Escola aos «moços internacionais».
         Olhanense de alma, nascimento e coração o João Parra foi figura relevante no futebol algarvio nos anos de 1950 e 70. Mais um produto da «Universidade do Futebol» que o era o «Largo da Feira», tendo como Magnífico Reitor Mestre Cassiano. Lembramo-nos dos duelos havidos aqui no São Luís ou no Padinha, entre Farense e Olhanense, de modo próprio nas dis-putas com «Mr. Joaquim Reina. Tempos idos»...
          Alinhou nos rubro - negros, onde atingiu a maior projecção da sua carreira futebolística, assim como no Futebol Clube de Luanda (Angola), no Mineiro Aljustrelense e no Marítimo Olhanense.
           Vimo-nos pela última vez, em plena Rua de Santo António, que tantas vezes percorremos juntos quando jovens e já então a sua condição física não era a desejada. O abraço então selado foi como que um adeus para sempre ao amigo João Parra, que ora nos deixou.

                                                   Joáo Leal

segunda-feira, 6 de julho de 2020

UM COSTELETA NA TV



O «COSTELETA» VÍTOR SILVA ÊXITO NA RTV 1

     Com uma carreira artística construída de êxitos ao longo de sessenta anos, Vítor Silva, o nosso prezado colega considerado «a voz de ouro do Algarve», voltou a alcançar destacada presença no programa da RTP 1 «A nossa tarde», transmitido no dia 3 de Julho. Com a presentação e realização de Tânia Ribas de Oliveira e uma animada presença do «Clube de Fãs de Vítor Silva» foi o último programa desta série ora apresentado já que só voltará ao écran em Setembro próximo.
    O artista farense, com uma presença havida em toda a parte do Mundo, de modo próprio junto das comunidades migrantes portuguesas, compôs durante este período de pandemia a canção «Tânia» que foi tornado o «hino do programa da tarde».
     Ao Vítor Silva aquele abraço de felicitações por mais este êxito, feito em nome da «solidariedade, fraternidade e vitalidade», que é o lema da AAAETC (Associação dos Antigos Alunos da Escola Tomás Cabreira).

                                                         JOÃO LEAL 

5ª de uma série de boas leituras
de Autores Nacionais.

IN VITORINO NEMÉSIO

UM PASSEIO A CAVALO

Ao entardecer os campos enchiam-se de neblina, o Pico ficava baço e monumental nas águas. Dos lados da estrada da Caldeira sentiu-se uma tropeada, depois pó e um cavaleiro no encalço de uma senhora a galope:
      Slowly! Let go him alone ...
     Os cavalos meteram a trote e puseram-se a par. O de Roberto Clark vinha suado, com um pouco de espuma na barriga e sinal de sangue num ilhal. O de Margarida, enxuto, meteu a passo.
     ― Ah, não posso mais ... O tio desafiou-me e deixou-se ficar para trás! Assim não vale...
    ― Largaste-te logo ... Eu bem te disse: prender e folgar ... prender e folgar ... E depois, deixaste-o fazer a curva a galope com a mão do outro lado. That’s dangerous! ...
     Roberto Clark exprimia-se correntemente em português; só tinha um nada de entonação ingénua, cheia de ohs, que tanto divertia a sobrinha; às vezes hesitava um pouco, à procura de certas palavras, fazendo estalar os dedos como quem deixa fugir precisamente a que convinha. Era um rapaz alto, espadaúdo. Vestia um casaco de sport e calção encordoado, à Chantilly, um boné escocês enterrado até às sobrancelhas ruivas, debaixo das quais espreitavam dois olhinhos sem cor precisa, como que metidos n’água.

     ― Que bom, galopar! E depois, este não é como a Jóia, que apanhou aquele passo escangalha-do da charrette ...
     ― Quê? A égua de teu pai, o peru? ... Half-bred ... Já lhe disse que tem de vendê-la.
     ― Ah! Se o tio conseguisse! ...
     ― Com o dobro do dinheiro da Jóia arranja-se um bom cavalo. Eu ponho o resto. É o meu presente de anos.
     Margarida sorriu; mas mostrou-se reserva-da, lassou um pouco as rédeas do bridão e compôs o cabelo. Não sabia o que era fazer anos desde a última vez que os passara na Pedra da Burra, nas Vinhas, quando o avô ainda se mexia e teimava em meter-se ao Canal. Em Fevereiro havia muitos dias de mar bravo, as lanchas afocinhavam nas grandes covas de água cavadas pelo vento da Guia. Para tirar o avô das escadinhas eram duas pessoas: o Manuel Bana dentro da lancha a agarrá-lo por um braço, o cobrador nos degraus do cais, de mão estendida, e sempre aquele perigo de escorregar nos limos. Mas teimava; metia-se no vão da janela do pomar quase entalado pela mesa, estendia o baralho das paciências na coberta de tapete com a garrafa de whisky ao lado, a caixa dos charutos e dos sisos do whist aberta. Ficava ali tardes ... a ouvir a tesoura de Manuel Bana, que podava defronte.
     Nesse ano quisera nas Vinhas todas as famílias amigas ― lanchas atrás de lanchas, o portão do pátio aberto para a charrette e com argolas para os burros. Tinham jantado na falsa por cima do barracão das canoas, por arrumar mais gente. A última vez que enfeitaram o bolo com rosas de que ela gostasse, as primeiras rosas de trepar do quintal do tio Mateus Dulmo. E camélias fechadas do Pico, como uns copinhos ... Vinte velas a arder diante do seu talher!
     ― Estás velha, hem? ...
     ― Velha, não; mas enfim ... o tempo não passa só para quem viajou muito como o tio. Quem me dera! ...
     ― Viajar ou envelhecer?
     ― Talvez as duas coisas ...
     Sentiu sede de se abrir toda ao tio, explicar aqueles dois pontos que ele isolara tão bem a rasto da recordação do seu dia de anos no Pico; mas não achou palavras sensatas, ou pelo menos capazes de serem ditas ali de selim selim, nos campos tão bonitos. As culturas começavam a cobrir-se das primeiras flores singelas; os olhinhos das árvores abotoavam discretamente. O verde-negro dos pastos, o verde dos Açores, quente e húmido, emborralhava-se até longe. Os cavalos seguiam de cabeça comprida, fazendo vibrar de vez em quando as ventas.
     ... Envelhecer não seria; mas era deixar passar um grande espaço de tempo, como um troço de filme em branco, fechar os olhos ao peso daquela doçura da volta, tapar os ouvidos como quem teve um mau dia e chora ao meter-se na cama, moída, gasta ... Na manhã seguinte acordar, mas passados uns anos, longe do Faial, ou noutro Faial só com o caminho à roda, o Pico em frente ... gaivotas ... sem ninguém.
     O tio tinha dito: «viajar ou envelhecer?» Margarida gastara a resposta naquele silêncio e os olhos nas orelhas do cavalo.

Um arranjo e digitalização de Roger. Gostaram de ler?

domingo, 5 de julho de 2020

MAIS UM COSTELETA QUE PARTIU




JOÃO TEÓFILO SALERO PARRA

Partiu
Segundo informação que nos chega à Redação do Blog, o Costeleta João Parra terá falecido hoje de manhã.

À família e amigos apresentamos, em nome da Direção, sentidos pêsames e o nosso profundo desgosto.

DESCANSA EM PAZ JOÃO PARRA





4ª de uma série de boas leituras
de Autores Nacionais.

IN TRINDADE COELHO

A Choca

Aquela tarde, a Choca recolhera ao poleiro mais cedo do que o costume. Atrás dela, lembrando doze novelitos de ouro a mexerem-se como por milagre, os doze filhinhos tinham seguido a mãe, – e lá dentro, qual deles com mais dificuldade, um a um tinham-se encarrapitado no velho cesto de palha onde faziam a cama, aninhando-se, o melhor que puderam, debaixo da asa materna.

Eles mesmos tinham estranhado recolher tão cedo aquela tarde, os pequenitos; – mas, cá fora, o rancho das outras galinhas atribuía isso à doença da Choca, porque a pobre, com o gogo, metia dó com tamanho sofrer! Um pouco aterradas, tinham assistido havia três dias a essa operação que a Choca sofrera, e que certas delas, na grei, sabiam muito dolorosa. A pena que lhe espetara no pescoço a velha que cuidava delas, fora o mesmo que nada, – e se mal estava, pior ficara, a pobre! Ainda a trazia, essa pena, mas quase seca porque não purgava; e entretanto, sem bem lhe fazer, afligia-a como se fosse um estigma, – tanto ou mais que a própria doença...

Por isso recolhera cedo, a Choca; deixando fora, pelo terreiro, gozando ainda o seu resto de tarde, o rancho das companheiras.

Ai, eram bem felizes, essas! Pelo buraco do poleiro, sentia-as agora cacarejar, – e não tardaria que o milho do recolher, que a velha, todas as tardes, trazia para elas no seu mandil, alvoroçasse no prazer do costume, em que por via de um grão, às vezes, havia entre todas rixas alegres, o bando das companheiras...

Só ela, doente, quase já não sabia o que era comer; – e ainda essa tarde, morta de sede, invejara a gotinha de água que um ou outro dos seus pintainhos, beberricando na pia, deixava, depois de saciado, cair do biquinho como uma pérola.

Mas nem comer nem beber, ela, que era muita a gosma, e não podia! E pelo que tocava a cacarejar, nem o bastante para a ouvirem os filhos, para os admoestar, para os dirigir, – quanto mais para uma dessas tiradas que outrora lhe haviam feito, ao romper da manhã, a sua fama de cantadeira! Galos que ela apaixonara, ciúmes em que fizera arder tantas rivais, ralhos, intrigas, combates, – como tudo isso ia longe, agora! Nos bebedouros, ela mesma se namorara da sua figura esbelta, muitas vezes; – e que o não adivinhara na devoção dos galos, de tantos que a tinham amado, e que ao aclarar das manhãs, todos os dias, lhe declaravam o seu amor dos poleiros à roda,– adivinhara-o na inveja das outras, esse prestígio mágico da sua beleza...

Certo galo, sobretudo, agora já velho, – e, como ela, agora já também sem entusiasmos, dir-se-ia que o enfeitiçara; e agora mesmo, vendo-a recolher cedo com a ninhada, esse velho e trôpego apaixonado (mas belo, ainda assim, na sua justa decrepitude) não tardara a recolher-se também. Subtil, passara, sumira-se ao fundo na sombra densa; e erguendo um voo pesado, sentira-o aninhar-se onde passava as noites, numa trave a um canto do poleiro. Cansaço talvez da vida, talvez doença também, – quem lhe dizia a ela, entretanto, que ele se não recolhera por a ver recolher, por a ver doente, por um impulso de compaixão, que era agora, talvez, como a agonia do seu velho amor?!

Pelo que respeitava às companheiras, as da sua geração eram já poucas; e essas, como ela própria, mais saudosas da mocidade, do que lembradas; e quanto às novas, muitas criara-as ela, – e, sobretudo, não era já dela que tinham ciúmes...

De resto, ela mesmo era boa companheira; e tirante algum fogacho de génio por amor dos filhos, se tinha de os proteger ou se lhos ofendiam, até no comedouro era moderada e no bebedouro; – e muitos pintainhos doutras ninhadas queriam-lhe como se fosse avó, e os frangos, uma vez por outra, ela própria, de manhã, ensinava-os a cacarejar.

Ah, mas esse bom tempo ia passado! Já chocara a ninhada com pouca saúde; e surpreendendo-se, às vezes, sem paciência para aturar os filhos, ignorava se seria por isso, se por a verem talvez doente, que eles mesmos, coitadinhos, pareciam às vezes também doentes!

...Entretanto, eles tinham-se aninhado todos, o melhor que lhes fora possível, debaixo da asa materna; – e embora muito enferma, ela era feliz, ainda assim, por ter tão quentes os seus pequeninos, – e agora, por certo, todos a dormir e talvez sonhando..

Um arranjo digitalizado de Roger


LIVROS QUE AO ALGARVE IMPORTAM





       «TURISMO E HOSPITALIDADE - DE A A Z»

         A Universidade do Algarve lançou, virtualmente, a obra «Turismo e Hospitalidade - de A a Z», da autoria da Prof. Dra. António Correia (Directora da Faculdade de Turismo e Hospitalidade daquela Instituição) e Dra. Áurea Rodrigues (Professora na mesma). 
       A obra «aborda o turismo e a hospitalidade numa perspectiva multi-disciplinar que permite apresentar um roteiro semântico por esta indústria tão vasta e importante da economia nacional e internacional».
        Livro bilingue (português e inglês) tem apresentação do Prof. Dr. Pedro Barbas Homem (Reitor da Universidade Europeia).

                                                   JOÃO LEAL 

sábado, 4 de julho de 2020

INFORMANDO



NOTÍCIAS DO TURISMO ALGARVIO
«Uma decisão absurda e errada e com graves consequências económicas e de confiança recíproca» foi como Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo de Portugal, classificou a decisão inglesa de excluir o nosso País do «corredor de viagens internacionais», que permite aos turistas britânicos gozar férias sem se submeterem à quarentena no regresso.
«O Algarve é um destino seguro», declarou a Dra. Isilda Gomes (Presidente da Câmara Municipal de Portimão) na 139ª sessão plenária do Comité das Regiões, em Bruxelas e de que faz parte. Pediu ainda a todos os países que «adoptem o pacote turístico da União Europeia».
Os «passadiços» constituem ao longo do País, quer no litoral como no interior uma nova atracção turística. Várias são as referências no Algarve neste capítulo com destaque para: Lagos (Ponta da Piedade, havidos como «um dos melhores trilhos do Mundo»); Portimão (desde 2016 os maiores da Região, desde a Praia dos 3 Irmãos à Ria de Alvor); Lagoa (Benagil, Carvoeiro, etc.) e Castro Marim (Manta Rota até ao limite do concelho).
«O Algarve somos todos nós» é o tema de uma campanha de promoção turística lançada por duas empresas algarvias - EC Travel e Rickytravel. Trata-se de uma mega acção nas redes sociais «Algarve momentos» visando promover o turismo algarvio pela positiva e fomentar a vinda de mais visitantes.
A Junta de Freguesia de Portimão deu início ao projecto «Praias Acessíveis» que permite o acesso a banhos, na Praia do Vau, a pessoas com mobilização condicionada, temporária ou permanente, com um novo equipa-mento.
A Universidade do Algarve foi considerada «a melhor universidade portuguesa na área do turismo e uma das melhores do Mundo», segundo a lista da «Shangai Rankings Global Ranking of Academic Schools 2020 - Top 100», que seleccionou 300 universidades. 
De 11 de Setembro a 11 de Outubro Loulé recebe, pela primeira vez, a «Rota do Petisco», o maior evento gastronómico do Algarve, promovido pela «Teia de Impulsos» (Associação Social, Cultural e Desportiva de Portimão). Numa época de crise esta iniciativa ganha um maior alcance já que pretende dinamizar o sector da restauração e assim potenciar um impacto positivo na economia local.
                                           JOÃO LEAL

NOVOS LIVROS




OS SETE PILARES DA SABEDORIA

T. E. Lawrence
A autobiografia de Lawrence da Arábia, uma das obras primas da literatura do século XX. O relato das vivências do autor enquanto membro das forças rebeldes durante a revolta árabe contra os Turcos Otomanos.
824 páginas.
Preço 22,41 euros.

"FURACÃO HAMILTON"

Sérgio Veiga
Dos primeiros tempos nas pistas de kart inglês em que chegou a ser vítima de bullying, ao dominador incontestado da era híbrida da F1, com 5 títulos nas últimas seis épocas. Esta é a história de Lewis Hamilton.
224 páginas.
Preço 15,21 euros.

"YOGA DO RISO"

Madan Kataria
Sabia que o corpo não é capaz de distinguir um riso real de um provocado? Rir sem ter nenhuma razão para o fazer é o conceito e a filosofia que sustentam o Yoga do riso. Aprenda a fazê lo naturalmente com este livro.

264 páginas.
Preço 15, 92 euros.

RENASCER

Luísa Jeremias

Uma história sobre a procura do amor. Questiona a vida de aparências, vazia, que levamos, e faz pensar sobre o que é realmente importante para se ser feliz.
560 páginas
Preço 17,00 euros.

Um arranjo digitalizado de Roger