Praia dos
estudantes
Ganhei
o hábito, com a amiga Inês, de vasculhar a nossa cidade, à procura de vestígios
do passado.Estamos
conscientes, de que o tempo com os condicionalismos da vida modifica não só os
humanos, como toda a natureza paisagística e urbana. Armadas
de máquina fotográfica encetámos a tarefa de encontrar, a antiga Praia dos
Estudantes.
Foi
difícil, porque está tudo tão modificado, que só com a ajuda de terceiros,
conseguimos atingir o objectivo. Indicaram-nos o caminho e nada encontrámos
como referência ao passado. Ao chegarmos, as diferenças eram de tal maneira
abismais, que não queríamos crer, que era ali o que procurávamos.
A
minha recordação era ténue, só lá tinha ido, em criança, 3 ou 4 vezes. Lembrava
apenas uma nesga de areia branca, uma ponte, o moinho de maré, a água
convidativa ao banho, e nada disso encontrámos no local, que nos disseram ser,
a Praia dos Estudantes. Foi nesse local que aprendi a nadar, ou antes, a
coordenar movimentos para não ir ao fundo, agarrada a um barco. No
tempo ido, não se valorizavam os banhos de mar e a nossa bela Praia de Faro,
ficava longe, sem acessos terrestres e poucos com utilização de barco.
A
Praia dos Estudantes foi a impulsionadora, a que levou a juventude farense, àdescoberta do prazer dos banhos...Neste
dia de aventura, com a amiga Inês, ao chegar a casa desiludida, e ao falar com
o Dinarte, meu companheiro de vida, fiquei a saber que ele havia morado,
durante um mês de Verão, no moinho do Grelha, Tinha “escrofuloso” e a conselho
do médico foi “a banhos”, como se dizia (anos 40).
Puxando
pela memória explicou, minuciosamente, toda a sua vivência do passado. O
moinho era pertença da D. Francisquinha, viúva do Grelha e era ela que operava
os engenhos, que moíam os cereais. A casa construída perto da ria permitia
quando a maré subia, a passagem da água sobre uma comporta basculante, indo
armazenar-se na caldeira (um reservatório situado no lado oposto à entrada da
água), até o nível de água ser igual, na ria e na caldeira. Durante
a vazante, a água exercia bastante pressão sobre a comporta, devido o desnível
e obrigava ao movimento das mós.
O
vaivém da água, por baixo da azenha e o rodar de todo o mecanismo, era
barulhento e assustador.
Perto
da praia existia a horta da família Bolas, com uma eira, que na altura da
preia-mar proporcionava um maravilhoso banho à criançada. Quem sabe, se também
da praia dos Estudantes, surgiu a ideia das piscinas, não existentes na época…
O
Local não era muito seguro para banhos, por causa das fortes correntes de água,
nos canais, e das “panelas” existentes no fundo lodoso.
Havia
muitas algas que eram recolhidas e transportadas em carros de bestas, que
avançavam pela ria, até à barriga dos animais.
Na
ponte de madeiras virados para o mar, à esquerda, ficava o moinho de maré e à
direita, a praia e a eira.
-
Impossível, não vi nada disso! - Esclareci.
Escolhemos
para o passeio/investigação o dia 1 de Março, sábado, às 16 horas.
Fomos
de carro até ao Instituto da Juventude, o resto do percurso fizemo-lo a pé, faz
bem à saúde.
Atravessámos
a passagem de nível, virámos à esquerda e seguimos junto às instalações do Carmo
e Brrás, aproveitando a sombra e resmungando pela “ciência” de quem colocou
candeeiros de iluminação, bem no meio do passeio estreito. Esse “cientista”
devia ter pensado, que o trânsito ali é diminuto e a passagem criada para
peões, não era necessária, o pior é quando este pensamento se estende, a locais
movimentados da cidade/capital.
Ultrapassadas
estas instalações seguimos por um “encantador” camínhito de pedras, lama e
buracos, rodeado de canaviais, atravessámos uma estrada recentemente
construída, num sítio de cruzamentos e seguimos em frente.
O
sol aquecia, o caminho continuava esburacado, à esquerda o súper mercado “LidI”
e depois o campo dos blocos, que serviu para a construção da barra de Santa
Maria.
Neste
espaço, conhecido como campo dos blocos, quando andava no Liceu, anos 50, vinha
com a malta jogar futebol e depois íamos refrescar, na praia dos Estudantes
(daí o nome), confidenciou o Dinarte.Chegados
ao local, as decepções sucederam-se, não existia a ponte, mais casas
construídas, pegando com o moinho de maré, descaracterizando-o, a caldeira e a
eira assoreadas, sem vestígios da sua existência…
Descobrimos,
unicamente, a parede do moinho virada para a ria, com os arcos por onde a água
passava, tendo milhares de conchas de bivalves, ali concentradas.
Nada
de língua de areia branca, nem de água convidativa ao banho...
Está
morta, a praia que foi dos Estudantes...
Percorremos
todo aquele espaço e conversámos com os irmãos Faleiro, que têm um viveiro de
amêijoas, ali perto, e um deles disse:
-
Lembram-se da Bicuda e da Azevia, dois barcos da marinha, fundeados nas “quatro
águas”, junto à praia dos Tesos... Tiveram de aprofundar o local, que havia
assoreado, dificultando a navegabilidade, e as lamas da dragagem, foram aqui
despejadas.
Regressámos,
consciente de que a vida não pára, que a pele se enruga, o cabelo embranquece,
os dias se convertem em anos e que nada na vida deve ser temido, somente
compreendido...
Pensando
bem, a praia dos Estudantes, perdeu o seu encanto, quando se iniciaram as
carreiras de barco para a Praia de Faro.
IN "PEDAÇOS D'ONTEM na cidade de Faro"
Autora: Lina Vedes
(Crónicas na 1ª pessoa)