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quarta-feira, 1 de abril de 2020

Aula com o Dr. Uva por Romualdo Cavaco


A Boina Basca

Era hábito, nos longínquos anos 50, os alunos, para se agasalhar, nas frias madrugadas,  durante o  percurso de casa até à Escola,  proteger a cabeça com as célebres “boinas bascas”.

 As aulas iniciavam-se às 8 H e 20 M e alguns alunos vinham de longe em vários meios de transporte….das Ferreiras, Patã, Boliqueime, Almansil, ….no combóio…….; de Vila Real, Tavira , Livramento, Fuzeta, Bias, Olhão…..na automotora….; Loulé e arredores, na EVA (a Camara Municipal apoiava alguns alunos)….de S.B.Alportel no António Evaristo Santo; de Estoi, Conceição, Sta. Barbara  e Patacão na “pedaleira”….alguns felizardos já vinham no “alpino” ou “cucciollo”, ao que chamavam “motor auxiliar”.

A “boina”, por vezes ficava guardada na pasta dos livros juntamente com a “bomba de ar” da bicicleta, a “marmita”, (para aqueles que não iam à cantina….) Por vezes,  em dias de azar, da marmita  saia um pingo de gordura, ocasionando a inevitável e característica mancha para arrelia do aluno  que se esmerava no asseio dos seus pertences escolares.
Todos os dias de aula havia um aluno à chamada, voluntário ou na falta deste, selecionado pelo Professor.

Nas aulas de Direito Comercial o aluno que ia  à “chamada”, levava  habitualmente para junto do Dr. Uva, o livro de Direito, o caderno, a cadeira, dando inicio a uma aula prática em diálogo, tendo por base o Código Comercial, a letra, o cheque, sociedades, extrato de fatura….

Certa aula em que o aluno foi à “chamada” com os livros da disciplina,  deixou na secretária os seus pertences….a mala com os restantes livros ….e a  inseparável “boina basca”…O colega da mesa ao lado apercebendo-se,  passa a boina de “mão em mão”, pelas costas dos restantes alunos, o que ocasionou uma natural distração que não foi alheia ao Dr. Uva….Este, que não se fazia rogado, inesperadamente, dá uma ordem de comando…..”jogue fora”…..

O aluno, sentindo-se entre o “apanhado” e o “sem culpa”…..não teve outro remédio e a boina saiu pela janela da sala de rés-do-chão qual disco voador em direção ao recreio….Os alunos relaxavam a mente daquela conversa maçadora de cheqes e letras com sociedades em  comandita…..simples e por quotas…..Todavia a boina não esteve muito tempo naquele recreio de gravilha que era como lixa para as botas do pessoal do campo e  para os sapatos dos da cidade…. 

Nisto, um aluno, solicito, que passava no recreio, corre a apanhar a boina, sem compreender bem o sucedido, mas para a entregar a alguém  ou jogar para dentro da sala…..Só que este recebe nova ordem de comando vinda de dentro da sala …..de novo do Dr. Uva …”deixe ficar”….A aula prosseguiu após o incidente, voltou a concentração…..sem mais comentários porque entre Professor e Alunos nos final da aula todos se entendiam…ao ser dada  a  nota ao “aluno vitima”…que soubesse muito ou pouco apanhava sempre 10. 

Próximo ao toque da campainha…..o Sr. Castro…..velha raposa que conhecia bem o Professor e a Malta….vem entregar a “boina basca” para descanso do aluno e  comentários de fim de aula….

                                      Romualdo Cavaco 
                                                                         "Enviou "     


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

LEMBRANÇAS DA NOSSA ESCOLA - O DECLAMADOR LUÍS PINHÃO

LEMBRANÇAS DA NOSSA ESCOLA

O  DECLAMADOR LUÍS PINHÃO

Naqueles tempos, saudosos e recordados tempos da segunda metade da década de cinquenta, em que tivemos esse honroso e honrado ensejo de frequentar a nossa querida Escola Tomás Cabreira, havia mundo em fora, uma predilecção especial em escutar os declamadores ou «diseurs» que nos traziam, quais trovadores da Idade Média, o que de mais belo havia na poesia. 

Veio também esse misto de criatividade artística que eram os «Jograis», havendo-se constituído na sequência da semente deixada pelos brasileiros “Jo­grais de São Paulo” (quem não se recorda do Armando Bógus, o Nacib da telenovela «Ga­brlela”), que atuaram no Cinema Santo António os “Jograis do Meio Dia”, com a presença de vários Costeletas de então. Recordamos alguns dos grandes declamadores a nível na­cional, com destaque para o trio João Vilaret, o maior entre os maiores, a par do clássico Manuel Lereno ou de Miguel Trigueiros. 

Em todas as festas, reuniões ou serões culturais, sobretudo de cunho escolar, o programa incluía vários nomes de declamação. Foi assim, nesta ordem de ideias, que se deslocava à nossa Escola em múltiplas ocasiões o ator teatral e declamador Luís Pinhão, que preenchia em verdadeira antologia da- Poesia Portugue­sa, sessões para os alunos. 

Creio bem, se a memória me não trai, que os grandes impulsionadores desta vinda a Faro do aplaudido Luís Pinhão eram os saudosos e sempre lembrados Mestres Costeletas Dr. Fernando Artur Moreira Ferreira (Diretor e Professor de Portu­guês e grande poeta) e o Eng. Geógrafo José de Campos Coroa (ele próprio um exímio de­clamador}. Para custear a deslocação a malta contribuía com um donativo na medida das disponibilidades que, não raro, eram exíguas. Mas lá que ouvimos grandes sessões de elevado nível da “arte de bem dizer” lá isso ouvimos com o ator Luís Pinhão.

JOÃO LEAl

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

COSTELETAS CUJA LEMBRANÇA É UMA SAUDADE - O SENHOR VICTOR E A MENINA LIBÂNIA



COSTELETAS CUJA LEMBRANÇA É UMA SAUDADE
O SENHOR VICTOR E A MENINA LIBÂNIA
Foram alguns, de entre os muitos «senhores contínuos» que, felizmente tivemos, que nos distinguiram com a sua amizade e os seus cuidados. Este casal, o Sr. Victor e a Menina Libânia (naqueles tempos estes senhores hoje classificadas profissionalmente como auxiliares de educação) aturaram-nos quer na extinta Escola Serpa Pinto, como na Escola Tomás Cabreira, nas atuais dependências e, também, na Rua do Município / Largo da Sé.
Moravam no Largo de São Pedro, paredes meias com a Igreja Paroquial, numa casa cuja entrada era um estabelecimento de barbearia, Não tiveram filhos mas foram os assumidos pais de uma sobrinha que, anos volvidos, viria a ocupar idênticas funções na nossa Escola. Enquanto a Menina Libânia era mais solícita e afetuosa seu esposo assumia-se com um ar mais reverente, mas ambos conquistaram gerais e a amizade de professores, alunos e colegas.
              Importa referir e quantos não «passaram pelas suas mãos» que o sr. Victor (surgia sempre nos programas das récitas escolares ou das sociedades recreativas como Caracterização - Victor Tavares) era um dos poucos, senão o único, que exercia este mister em Faro. Com a sua malinha onde abundavam os cremes, tintas, pó de arroz e outros artefactos, transformava, num ápice um jovem num idoso ou uma das nossas colegas numa respeitável senhora.
Recordar hoje este casal é homenagear as memórias de quantos nos aturaram.

JOÃO LEAL

sábado, 16 de abril de 2016

ANOS 40-50 NAQUELE TEMPO



Praia dos estudantes

Ganhei o hábito, com a amiga Inês, de vasculhar a nossa cidade, à procura de vestígios do passado.Estamos conscientes, de que o tempo com os condicionalismos da vida modifica não só os humanos, como toda a natureza paisagística e urbana. Armadas de máquina fotográfica encetámos a tarefa de encontrar, a antiga Praia dos Estudantes. 
Foi difícil, porque está tudo tão modificado, que só com a ajuda de terceiros, conseguimos atingir o objectivo. Indicaram-nos o caminho e nada encontrámos como referência ao passado. Ao chegarmos, as diferenças eram de tal maneira abismais, que não queríamos crer, que era ali o que procurávamos. 
A minha recordação era ténue, só lá tinha ido, em criança, 3 ou 4 vezes. Lembrava apenas uma nesga de areia branca, uma ponte, o moinho de maré, a água convidativa ao banho, e nada disso encontrámos no local, que nos disseram ser, a Praia dos Estudantes. Foi nesse local que aprendi a nadar, ou antes, a coordenar movimentos para não ir ao fundo, agarrada a um barco. No tempo ido, não se valorizavam os banhos de mar e a nossa bela Praia de Faro, ficava longe, sem acessos terrestres e poucos com utilização de barco.
A Praia dos Estudantes foi a impulsionadora, a que levou a juventude farense, àdescoberta do prazer dos banhos...Neste dia de aventura, com a amiga Inês, ao chegar a casa desiludida, e ao falar com o Dinarte, meu companheiro de vida, fiquei a saber que ele havia morado, durante um mês de Verão, no moinho do Grelha, Tinha “escrofuloso” e a conselho do médico foi “a banhos”, como se dizia (anos 40).
Puxando pela memória explicou, minuciosamente, toda a sua vivência do passado. O moinho era pertença da D. Francisquinha, viúva do Grelha e era ela que operava os engenhos, que moíam os cereais. A casa construída perto da ria permitia quando a maré subia, a passagem da água sobre uma comporta basculante, indo armazenar-se na caldeira (um reservatório situado no lado oposto à entrada da água), até o nível de água ser igual, na ria e na caldeira. Durante a vazante, a água exercia bastante pressão sobre a comporta, devido o desnível e obrigava ao movimento das mós.
O vaivém da água, por baixo da azenha e o rodar de todo o mecanismo, era barulhento e assustador.
Perto da praia existia a horta da família Bolas, com uma eira, que na altura da preia-mar proporcionava um maravilhoso banho à criançada. Quem sabe, se também da praia dos Estudantes, surgiu a ideia das piscinas, não existentes na época…
O Local não era muito seguro para banhos, por causa das fortes correntes de água, nos canais, e das “panelas” existentes no fundo lodoso.
Havia muitas algas que eram recolhidas e transportadas em carros de bestas, que avançavam pela ria, até à barriga dos animais.
Na ponte de madeiras virados para o mar, à esquerda, ficava o moinho de maré e à direita, a praia e a eira.
- Impossível, não vi nada disso! - Esclareci.

Escolhemos para o passeio/investigação o dia 1 de Março, sábado, às 16 horas.
Fomos de carro até ao Instituto da Juventude, o resto do percurso fizemo-lo a pé, faz bem à saúde.
Atravessámos a passagem de nível, virámos à esquerda e seguimos junto às instalações do Carmo e Brrás, aproveitando a sombra e resmungando pela “ciência” de quem colocou candeeiros de iluminação, bem no meio do passeio estreito. Esse “cientista” devia ter pensado, que o trânsito ali é diminuto e a passagem criada para peões, não era necessária, o pior é quando este pensamento se estende, a locais movimentados da cidade/capital.

Ultrapassadas estas instalações seguimos por um “encantador” camínhito de pedras, lama e buracos, rodeado de canaviais, atravessámos uma estrada recentemente construída, num sítio de cruzamentos e seguimos em frente.
O sol aquecia, o caminho continuava esburacado, à esquerda o súper mercado “LidI” e depois o campo dos blocos, que serviu para a construção da barra de Santa Maria.

Neste espaço, conhecido como campo dos blocos, quando andava no Liceu, anos 50, vinha com a malta jogar futebol e depois íamos refrescar, na praia dos Estudantes (daí o nome), confidenciou o Dinarte.Chegados ao local, as decepções sucederam-se, não existia a ponte, mais casas construídas, pegando com o moinho de maré, descaracterizando-o, a caldeira e a eira assoreadas, sem vestígios da sua existência…

Descobrimos, unicamente, a parede do moinho virada para a ria, com os arcos por onde a água passava, tendo milhares de conchas de bivalves, ali concentradas.
Nada de língua de areia branca, nem de água convidativa ao banho...
Está morta, a praia que foi dos Estudantes...
Percorremos todo aquele espaço e conversámos com os irmãos Faleiro, que têm um viveiro de amêijoas, ali perto, e um deles disse:
- Lembram-se da Bicuda e da Azevia, dois barcos da marinha, fundeados nas “quatro águas”, junto à praia dos Tesos... Tiveram de aprofundar o local, que havia assoreado, dificultando a navegabilidade, e as lamas da dragagem, foram aqui despejadas.

Regressámos, consciente de que a vida não pára, que a pele se enruga, o cabelo embranquece, os dias se convertem em anos e que nada na vida deve ser temido, somente compreendido...

Pensando bem, a praia dos Estudantes, perdeu o seu encanto, quando se iniciaram as carreiras de barco para a Praia de Faro.

IN "PEDAÇOS D'ONTEM na cidade de Faro"
Autora: Lina Vedes
(Crónicas na 1ª pessoa)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

HISTÓRIA DE UM COSTELETA

Paixão Pudim


NAQUELE TEMPO

por Paixão PUDIM

Anos cinquenta em Faro... a “malta” estudantil frequentava a Brasileira em autêntica romaria... no prédio em frente, ao longo do dia, concentravam-se diversas beldades na papelaria e livraria ARTYS do Sr, Capela e, no 1º andar, existia uma residencial feminina, algumas nossas colegas... verdadeiras pérolas apetecíveis de contemplação. Lembro-me da graciosa Gabriela. Da escultural Odete e, outras jeitosas que nos permitiam “sonhar”... “cor–de-rosamente”... porque naquele tempo “os morangos com açúcar” de hoje eram, simplesmente, inimagináveis.

Uma bela tarde de sábado, não sei porquê, houve necessidade de “estravasar”... e um de nós alvitrou a hipótese de uma experiência que não era muito vulgar... ir a um baile fóra de portas. A Olhão não, porque o Caronho namoriscava, na altura, a Olhanense Isaura. O José Luís não lhe convinha ir a Loulé por causa da louletana Solange.

O Silvério e eu, por causa da Gabi e Fernanda, respectivamente, ... em Faro, nunca!... por conseguinte, só nos restava solicitar apoio de uma pessoa entendida para resolver estes repentinos casos... e não foi difícil encontrar o mais credível... o mais atencioso e amigo,... o espectacular senhor Napoleão, taxista, sobejamente conhecido dos estudantes “bifes e costeletas”... mais a sua “arrastadeira”... um velho citroêm que fazia as delícias da “malta” quando executava curvas apertadas no largo de S. Francisco.
Depois de várias “consultas e análises” aos programas sugeridos e, em conformidade com as nossas possibilidades financeiras, lá fomos a caminho de Sta. Bárbara de Nexe. Quando chegámos já decorria o baile e o ambiente estava convidativo para ficar.
As jovens “montanheiras”... como diria o nosso amigo Brito de Sousa “perdiam-se” com a rapaziada estudantil... por vezes, aproveitavam a nossa presença para castigar e originar cenas de ciúmes... e os namorados ou ex-namorados vingavam~se à pedrada no carro do Sr Napoleão...

E foi assim, que passados breves momentos, fomos aconselhados a abandonar o local por ameaças de retaliação de uma última vez, muito mal explicada, e que nada se relaciona connosco.
Para evitar complicações andámos mais uns quilómetros e fomos até Bordeira. Chegados ao local entrámos com “pezinhos de lã”.... o ambiente estava bom e agradável. Era uma semi-esplanada... as primeiras músicas ao som do acordeão, clarinete e bateria dava para apreciar e escolher as “moças” não comprometidas... mas, há que usar prudência adequada aos hábitos e costumes das pessoas que frequentam o local.

Assim combinámos e assim cumprimos.

Ocupámos uma mesa e ficámos a aguardar a próxima dança para avançarmos. Entretanto, um sujeito (espécie de empregado de mesa sem estilo) chegou perto de nós e perguntou-nos o que desejávamos beber. Lembro-me que olhei para os lados e vi algumas mesas com copos de vinho tinto, pirolitos e pasteis de nata. Nada daquilo nos agradava e um de nós pediu café e, logo a seguir, foi unânime a nossa escolha... – café para todos, dissemos a uma mulhersinha que chegara próximo de nós a pedido do tal sujeito... e fomos todos dançar.
Quando a dança terminou acompanhámos as “moças” ao lugar (para os mais novos, era assim que se procedia delicadamente)... e, escutámos os primeiros risos com sussurros à mistura... é que chegados à nossa mesa eis a grande surpresa que nos deixou espantados e boquiabertos... no centro da mesa, em cima de um capacho de abanar, estava uma cafeteira de esmalte, bastante usada com borras de café a transbordar, quatro tigelas maltratadas, com mossas e um cartucho de açucar com o gargalo cortado à mão... e uma colher de sopa meio encardida.
Foi uma risada geral... talvez, por isso, a tal mulhersinha um pouco acanhada aproximou-se de nós a perguntar se estava tudo bem... e se desejávamos um pouco de pão para fazer sôpas.

Foi um delírio... nunca mais esqueci esta cena. Na segunda feira quando chegámos à nossa escola as nossas “namoradinhas” sabiam tudo.

Bons tempos, belas recordações como realça muitas vezes a nossa querida e maravilhosa colega, excelente poetiza, Maria José Fraqueza.

Para ti, Zezinha, um abraço do
Paixão Pudim

Publicação de
João Brito Sousa