segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

CRÓNICA DE FARO
JOÃO LEAL

AS HORTAS «URBANAS»

A capital sulina, tal como acontecia com outras localidades algarvias, um conhecimento directo valia esta nossa afirmação, dispunha de amplos espaços agriculturados, que se chamavam de «hortas». A boa qualidade dos terrenos, a relativa abundância de água, extraída em muitos casos com a energia eólica (os moinhos de vento) e o empenho dos cultivadores levava a que grandes terrenos inseridos nos núcleos habitacionais produzissem verdejantes ervas (salsa, coentros e hortelã), assim como deliciosos vegetais (couves, batatas doces e redondas, favas e ervilhas por aqui chamados de griséus).
Á memória vem-nos a horta do Sr. Leal (que passe a semelhança de nomes nada nos unia a não ser a relação produtor / comprador) ali na Praceta Pintor Carlos Lyster Franco, artista e professor. Possuía também uma carvoaria, ao que cremos sendo o carvão vindo de Garvão e de outras localidades do Alentejo dito Baixo. O moço, que o cronista era nesses distantes anos, ia fazer os «mandados» que a Mãe Gertrudes entregue aos labores da costura o mandava.
Ali perto, na vizinha Rua Ventura Coelho fica o «Palácio dos Guerreirinhos», também chamado de «Palácio dos Anões», face à baixa estatura dos seus donos. O vasto logradouro que se estendia em paralelo às Ruas Infante D. Henrique e Sebastião Teles, até ao Palacete do Mateus da Silveira (onde esteve instalado o Hospital Lusíadas), era uma bela horta.
Já fora da zona urbana ficava a mediática Horta dos Três Engenhos, cuja inovação de engenharia hidraúlica permitia a recolha do líquido preciso para a rega dos vastos terrenos que se estendiam até à beira Ria Formosa.
Junto à Igreja do Carmo situava-se a Horta do mesmo nome, cujos amplos espaços foram expropriados para edificação do imóvel destinado aos CTT / Telefones e onde se processava uma notável quantidade de excelentes produtos vegetais.
A rama da batata doce era um «fartote» para os coelhos que então criávamos.
Mas distante, do outro lado da cidade, ficava a Horta do Ferregial, que em1950 começo a ser retalhada, com a construção do imóvel destinado a Comando Distrital da PSP.
Era um regalo o tanque que existia junto a frondosa amoreira. Era como que uma piscina de refrigério após os animados jogos de futebol que se jogavam no «Estádio dos Blocos», onde fora o estaleiro das obras do porto comum de Faro / Olhão.
Havia também a «nobre» Horta do Palácio do Alto, com destaque para frutos exóticos e abundantes flores que o sr. António, a mando da sra. D. Antónia Fialho, ia distribuir pelas Igrejas da Cidade.
De referir os excelentes produtos vegetais produzidos eram nessa manhã conduzidos para a ampla fila de toldas, na Rua Comandante Francisco Manuel até ao interior do extinto mercado municipal (praça como se lhe chamava), onde existiam também vários talhos, inclusive da venda de carne cavalar, consumida durante a II Guerra Mundial.
Lembranças de uma cidade, através da memória das suas hortas, que já não existem,

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