O DR. TELLO QUEIROZ
Era um mestre que veio para a nossa Escola aí pelo finais dos anos 50 ou princípios de 60 do ido século XX e de que são conhecidas algumas excentricidades. Isto não afectava no mínimo o seu saber, que era grande e que ele, fraternamente prodigalizava com todos, em especial com os alunos.
Natural de Lagos e membro da linhagem fidalga, como o próprio nome o atesta, o Dr. José Francisco Tello Queiroz, leccionou durante vários anos na Escola Tomás Cabreira e tinha um ênfase muito especial e sabedor, em tudo o que se referia ao então designado por «Ultramar Português», as antigas colónias que hoje são os PALOP,S (países de língua oficial portuguesa).
Eram conferências, ele que era um dotado orador; exposições de temática ultramarina que fazia promover e outras manifestações, sempre imbuído do espírito assumido de que «não se pode amar aquilo que se não conhece».
Assisti a reuniões com elementos vindos de Angola, Moçambique, Guiné, etc. que desconheciam o que o dr. Tello Queiroz lhes expunha sobre hidrografia, orografia, economia, etnias, etc. das colónias de que eram originários.
Mas tinham muitas e curiosas excentricidades que faziam o «gozo» da Tomás Cabreira. Comigo foram vários os casos, de que não me furto a contar o passado entre nós. Manhã cedo telefonou para minha casa dizendo-me da muita urgência em nos encontrarmos pois acabara de chegar de Lisboa, - Com certeza, Senhor Doutor. Estarei em vossa casa dentro de minutos....
Assim aconteceu e dirigi-me à sua residência no andar superior da Rua Reitor Teixeira Guedes, em cujo rés-do-chão funcionava a Foto Loução (imediações do Palácio da Justiça). Após muitos e repetidos toques de campainha lá se abriu a porta e o meu interlocutor a receber-me e a dizer-me:
- Aguarde aqui uns minutos enquanto faço a higiene básica.
Assim sucedeu, só que aos minutos sucederam-se as horas e havia na casa, como diria o saudoso professor de História e outro excêntrico, o Dr. Salgado:
«ouvia-se o sepulcral silêncio das múmias faraónicas». As horas passaram, a fome do almoço chegou e eu tomei a decisão de «bater em retirada».
A meio da tarde telefonou-me a pedir desculpas e a dizer que a cama o chamara e se deixara dormir.
A Câmara Municipal de Lagos, em preito de homenagem ao seu valor intelectual deliberou dar o nome do Dr. José Francisco Tello Queiroz a uma artéria na Urbanização Marina Sol, na União de Freguesias de São Sebastião e de Santa Maria, naquela cidade da Costa de Ouro.
JOÃO LEAL