sábado, 13 de novembro de 2010

QUANDO ALGUÉM PARTE

Com 73 anos de idade o nosso associado
nº 350  - José Manuel Pontes Gonçalves
Partiu
À familia enlutada apresentamos o nosso profundo desgosto

PAZ À SUA ALMA

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

RECORDANDO A NOSSA CIDADE

Alfredo Mingau

Preambulo

Já estavam admirados com a minha ausência? Aqui vai a resposta ao NÃO ME ABANDONEM do JB
De facto ausentei-me durante estas duas semanas; há quem se ausente muito mais e outros, sem motivo aparente, ainda não regressaram. E o meu pensamento, de certo modo, concentrou-se na recordação da nossa cidade, em que muitos aqui nasceram e muitos outros aqui viveram ou por aqui passaram durante os seus estudos na Tomás Cabreira. Focando, como pretendo recordar pessoas e locais, a vivência durante os anos quarenta, veio-me à memória a diferença daquele para o tempo de agora. Todos saíam à noite, sem receios, em contraste com os dias de hoje que poucos são os que se aventuram a sair de casa durante a noite. E o meu pensamento reportou-se naquela crónica do Maurício em que, numa daquelas noites, desfrutando o prazer do convívio no Jardim Manuel Bívar, foi ajudar o Paulo Emílio a recuperar o “charuto” que tinha sido furtado. E escrevi esta crónica que espero seja do vosso agrado e vos recorde “qualquer coisa” no cantinho do vosso memorial e os faça alertar para o pedido NÃO ME ABANDONEM.

Memorial do Jardim e enquadramento

Naquele tempo o Jardim Manuel Bívar também era vulgarmente chamado do “Jardim da Doca”. E à noite era um jardim cheio de vida, com muita gente, desde as crianças, dos jovens aos adultos, que procuravam o convívio agradável passeando. E os mais pequenos brincando. Principalmente as meninas que formando dois grupos cantavam “Fui ao Jardim da Celeste” giroflé giroflá” e o outro respondia “O que foste lá fazer” “giroflé giroflá”…
À noite era a hora do lazer, depois do jantar, em que toda a cidade enchia o jardim, por vezes aos encontrões, passeando entre o coreto e o monumento do busto de João de Deus. E as bandas tocavam no coreto. As senhoras sentavam-se nos bancos em amena conversa, enquanto os maridos tomavam a “bica” com os amigos no café ou na esplanada do Aliança.
De dia, junto do Coreto, viam-se os engraxadores com as suas caixas e o banquinho a dar lustro aos sapatos dos clientes principalmente ao Domingo de manhã. Cada engraxadela 5 tostões o mesmo preço da “bica”. E ali viam-se o “Marrequinho”, o “Mestre Cuco” o “Zé Fitas”, o “Pinau”, o “Rato”, entre outros, disputavam os clientes como sendo o melhor da profissão. “Umas talas para não pintarem as peúgas do cliente e uma boa cuspidela seguida de uma vigorosa fricção apagavam qualquer mancha impertinente”. “Mestre Cuco” trabalhava com horário de trabalho; cumpria rigorosamente e ao soar o meio-dia deixava o freguês com um sapato engraxado e dizia:
- Volte às duas horas.
O jardineiro que cuidava do jardim era o “Zé Nabo”, que punha um grande cuidado no arranjo dos canteiros e que só regressava a casa para dormir.
Junto do coreto também se fixavam os retratistas. Fotógrafos “A la minuta”, com a caixa mágica sobre um tripé. Os irmãos “Seita”.
No enquadramento do jardim ficava o hospital, a “Praça Velha”, a doca e a Praça Ferreira de Almeida
Nesta praça, mais conhecida pelo “largo das camionetas”, em que estes transportes de passageiros estacionavam junto dos cafés “Coelho” e “Madeira”, também se viam os carroceiros, aguadeiros e moços de fretes. Dos “moços de fretes” recordamos o “Pirilau” o “Má Língua”, o “Macaco”, o “Rato Chino”, o “Menino Chico”, o “Arpanço” e outros.
Junto do “coreto” e circulando pela cidade, podíamos ver o preto cauteleiro o “Ti Pedro”, com o “sonho” de muita gente.
O “Toninho”, vestindo um casaco “maior do que ele” e sapatos enormes, desembarcava da camioneta de Cachopo carregado com coelhos, lebres e perdizes e que gritava “Ó caça brava!”.
Os “limpa chaminés”. de preto vestidos, carregando com as vassouras e raspadores, apareciam quando chamados.
Junto ao jardim, a seguir ao busto de João de Deus ficava a “Praça Velha”; o mercado com tendas ao ar livre; vendedores da “Banha de Cobra”, com curas para tudo; um barracão de frutas, legumes e talhos; logo a seguir, saindo do barracão, a central eléctrica, a Alfandega e o Mercado do peixe.
Junto a doca, onde hoje está o Hotel Eva, um terreno baldio onde os carreiros estacionavam os seus carros puxados, geralmente por mulas, aguardavam os clientes para o transporte de e para as barcaças com palma vinda de Marrocos; amêndoa, alfarroba e cortiça de origem Algarvia.
E, passando o Arco da Vila entravamos e subiamos a Rua do Município onde, a meio da rua e do lado esquerdo, se encontrava a Escola Industrial e Comercial de Tomás Cabreira, onde presentemente está instalada a Policia Judiciária.

PS - Com alguma pesquisa incorporada, foram os anos da década de 40.
        E satisfazendo o poema do JBS - NÃO ME ABANDONEM.








O VELHO E A GAIVOTA (fim)



Por João Brito Sousa


E foi-se embora.

Depois da saída do velho eu e o Dr. Guedes ficámos a conversar no jardim, sentados num banco, que entretanto ficava vago. Tentamos conhecer-nos melhor um ao outro, falando de tudo e sem rodeios o que foi óptimo. O Guedes falou de casos que se passaram na repartição, coisas complicadas e difíceis de resolver, daquelas situações que tornam a humanidade infeliz. Foi nesta altura que o Guedes perguntou: - o velho será feliz?

- Eu acho que a questão do velho não será de felicidade ou infelicidade, o problema é mais de falta de coerência, ele falhou em qualquer aspecto da sua conduta pessoal, deverá ser uma questão com uma certa força que o afectou sobremaneira. O velho é rijo e forte, não se deixa abater assim à primeira, é mais uma questão em que ele se sente culpado, eu estou a ver a coisa mas talvez não a saiba explicar, é uma questão de honra que está em jogo o que gera no velho um pouco de angústia, porque se trata, penso eu, de uma situação quase irreparável.

- Mas ó Ismael, você está a ver longe. O que é que o leva a dizer tal, perguntou o Dr. Guedes.

- Nada de especial, é uma certa forma de ver, de excluir hipóteses sem hipóteses, veja bem, se houvesse ainda a possibilidade de o hipotético problema se resolver seria resolvido e pronto. Mas a mim parece-me uma coisa fora de tempo e fora das possibilidades de solução imediata. Portanto o meu raciocínio vai cair dentro do campo do impossível, por exemplo uma grande ofensa que se fez a alguém que entretanto morreu é uma coisa que não se pode recuperar e causa-nos problemas de consciência. É uma coisa assim, disse eu.

-Ah, sim, entendo, disse o Guedes.

- È claro que isto é uma espécie de um passatempo, nada mais do que isso, disse eu. Mas amanhã, saberemos, disse eu.

- Talvez disse o Guedes.

E despedimo-nos com um até amanhã aqui, às 16 horas.

- Está bem, disse eu.

- Ok, disse o Guedes

Não pensei mais no assunto até à hora do almoço do dia seguinte, sábado, portanto. A vida sem grandes confusões vive-se melhor e tinha chegado à conclusão que não teria uma resposta para o problema do velho. Mas à hora do almoço desse sábado algo dentro de mim me alertou para qualquer coisa.

Às dezasseis horas lá estávamos todos no jardim; eu, o Guedes, o velho e a gaivota. O velho ao ver-nos, veio em nossa direcção e entregou-nos um envelope que estava aberto com um documento lá dentro e disse-nos para o lermos.

E dizia, meu General, já recebi a tua prenda de anos, mas, como em todos os anos, não foi a que eu desejava. Se me tivesses perguntado, ter-te-ia dito: BRINCA COMIGO AVÔ.

O velho voltou até nós, depois de se aperceber que tínhamos lido o documento que estava dentro do envelope e disse.

- Foi o que eu nunca fiz e é esse o meu grande problema. Perceberam?

E nós não respondemos.

 
jbritosousa@sapo.pt
O que a história nos reservou!

De bom ou de mau. Cabe-nos a nós interpretar e quiçá julgar.




1 – Ao longo dos séculos foram várias as tentativas falhadas para constituir a União Ibérica. A criação do Estado português, no séc. XII, tem motivações diversas e eventualmente acidentais. A independência surgiu contra o reino de Leão e fortificou-se na luta com Castela. O tratado de Alcanizes foi o primeiro passo da separação.

Uma geografia montanhosa e agreste, por um lado, e o Oceano Atlântico, por outro, podem justificar a criação geográfica do Estado. Uma economia frágil determinou a expansão ultramarina. Tudo isto nos divorciou da Europa e nos afastou da Espanha. Portugal não era uma nação. Nem disso tinha consciência. Portugal era um conjunto de tribos celtiberas, de visigodos, de romanos e judeus, a que se viriam a juntar, mais tarde, os mouros. Foi claramente por razões de poder entre senhores feudais e de intriga entre as Cortes de Leão e do Condado Portucalense (com a Galiza de permeio) que acaba por surgir Portugal. Tudo o que depois se disse sobre Viriato e os Lusitanos não passa de mistificação setecentista para consolidar uma identidade nacional permanentemente dividida entre Portugal e Castela.

2 – Desde os primeiros reinados portugueses houve sempre a preocupação de fazer contratos nupciais entre Portugal e os reinos de Leão, Aragão e Castela. Os casamentos cruzados começam logo na primeira dinastia e mantêm-se com a dinastia de Avis. Estes casamentos visavam garantir a paz, mas também colocavam questões de sucessão nos reinos envolvidos.
Se exceptuarmos as tentativas de reconquista militar ainda na primeira dinastia, podemos dizer que o Estado português se estabilizou a partir D. Dinis (1261-1325)) e que a partir daí todas as tentativas de “fusão” se devem a questões dinásticas, motivadas pelos referidos casamentos cruzados.

3 – Curioso é notar que com a dinastia de Avis (2ª dinastia) se começa por consolidar a independência (D. João I – 1385), para logo a seguir se tentar a “fusão”, até se perder a independência, após a morte de D. Sebastião. Tudo nesta dinastia. Ora vejamos:

- D. João I – Na sequência da morte do rei D. Fernando, sem herdeiros, a regência foi entregue à mulher, Leonor de Teles. As ambições desta e as inimizades que motivou, mais a sua ligação ao conde galego João Fernandes Andeiro, conspirando para entregar o reino ao rei de Castela (tambem. de seu nome João), criaram um movimento nacionalista, para o qual foi fundamental o apoio da burguesia, com o Mestre da Ordem de Avis, D. João, à frente. Deram-se as batalhas de Aljubarrota e Atoleiros e a independência é garantida, com o apoio fundamental dos ingleses. Em 1386 o Tratado de Windsor, o mais velho tratado internacional do mundo, é celebrado, juntamente com o casamento de D. João com Filipa de Leichester (Lencastre). E nunca mais nos vimos livres dos ingleses.

- D. Afonso V – em 1446, com 14 anos, toma conta do governo que já então se tinha estendido ao norte de África (Ceuta), no reinado do pai, D. Duarte. Afonso V é um rei “fora do seu tempo”: um cruzado e um cavaleiro. Depois de tomar várias praças-fortes em Marrocos, dando expressão à sua faceta de “cruzado”, resolve defender a sua dama e envolver-se numa patética luta com Castela que se viria a ser desastrosa, não fora a intervenção do filho.

- D. João II – filho de Afonso V e desde muito novo associado ao governo de Portugal, foi ele que deu alguma sanidade à gestão do pai e foi o responsável pelo planeamento dos Descobrimentos. O “Príncipe Perfeito” tinha um sonho: ser rei do Mundo! Para isso tinha de conseguir a coroa de Castela. As duas potências ibéricas começavam a descobrir outros continentes e outros caminhos marítimos. Alternativas comerciais e expansão de mercados. Se Portugal e Castela se juntassem, esse novo reino seria o “dono do Mundo”. Esta política de fusão foi deliberadamente conduzida por ele e pelos Reis Católicos. Havia esse desejo por parte de ambas as Casa Reais. Em 1490 casa-se Afonso, herdeiro do trono português, com Isabel, herdeira de Castela. Em breve haveria um único rei na Península. Era a época das “fusões”. Castela tinha já incorporado Leão e estava em “operação de aquisição” com Aragão, fruto do casamento de Fernando de Aragão e Isabel de Castela (os Reis Católicos). Em breve, também, os mouros iriam ser totalmente expulsos, com a tomada de Granada, último bastião do Islão na Península. Não quis, porém, o destino. O príncipe Afonso cai do cavalo em Almeirim e morre sem herdeiros. D. João segundo deixa de sonhar com o Mundo todo e força o Tratado de Tordesilhas (1494), para assegurar meio Mundo.

- D. Manuel I – primo de D. João II sobe ao trono e sem saber ler nem escrever herda tudo o que o antecessor tinha planeado. Por isso é o “Venturoso”. De qualquer forma não desiste do objectivo da “fusão” dos tronos. E, novamente, com o acordo dos Reis Católicos, casa com a mesma Isabel viúva do príncipe Afonso, ela que continua a ser a herdeira do trono de Castela e Aragão. Um verdadeiro “déjà-vu”. Com a mulher em adiantado estado de gravidez, vai a Espanha para jurar a sucessão. Chega a jurar o trono de Castela, em Toledo. A sua garantia era a mulher, Isabel. Mais uma vez o destino não quis. A mulher morre de parto ainda em terras de Espanha e D. Manuel não chega a tomar posse de Aragão. Volta para Portugal com o rabo entre as pernas, mas deixa lá uma semente de união: o filho D. Miguel de la Paz, herdeiro jurado dos três tronos. Era a derradeira esperança de união… Mas não! Também este morre com pouco mais de 2 anos de idade.

- D. Sebastião – mais um homem fora do tempo e, aliás, fora de tudo. Neto de D. João III, inicia o reinado em 1568. Deixa-se matar com 24 anos, em Marrocos, na “Batalha dos Três Reis” (nome dado pelos marroquinos, pois morreram dois reis mouros e um português), na sequência de uma loucura cruzadística. Lança o país na maior confusão dinástica. O quadro sucessório era complexo, mas acabaram por triunfar as razões jurídicas puras e duras. A sucessão competia a Filipe de Espanha. Não houve resistência militar à altura e, com a clara complacência, e até vontade, da alta nobreza e clero, o trono passa para o monarca da Casa de Habsburgo. De 1580 a 1640 Portugal foi mais um país governado por essa “holding” europeia de gestão de reinos. Nunca chegou a haver verdadeira fusão. Nunca houve uma identidade conjunta. Apenas uma gestão conjunta. A independência voltaria por detalhes mesquinhos relacionados com a nobreza e impostos necessários ao esforço de guerra espanhol. Nunca mais haveria outra hipótese…

4 – Na actualidade Portugal e a Espanha estão reunidos na EU. Mas a União Ibérica nunca saiu da nossa cabeça. Uns; para se oporem; outros, para a desejarem. Só isso significa que há uma genética comum. Uma nostalgia de separação.
Quase a totalidade de historiadores e autores que se têm dedicado à nossa história são unanimes na permissa de que sempre houve na mente dos nossos reis, de todas as dinastias o sonho da unificação peninsular.
Um abraço
Diogo

ps
Bibliografia: "o dia de aljubarrota" de Luis Rosa
" Cristovão Colombo agente secreto do rei D. João segundo" de Mascarenhas Barreto
" o ultimo bandeirante" de Pedro Pinto
"D. Sebastião e o vidente" de Deana Barroqueiro
"A esmeralda partida" de Fernando de Campos
" O coraçao do Rei ( D. João quarto) de Iza Salles
" a saga do Rei Menino" de Candido Franco
NÃO ME ABANDONEM



Não me ignorem, não me deixem só …
Mandem-me notícias; o meu alimento
Às vezes sinto-me quase reduzido a pó
Por isso vem, vem a qualquer momento


E diz o que pensas sem qualquer receio
Mas tu já sabes o que deves ou não dizer
Porque, além de conheceres bem o meio
No blogue, gostamos sempre de te ver …


Conta a engraçada estória passada contigo
Ou conta a outra passada com o teu amigo
São coisas simples que caem sempre bem


E pensa que eu estou aqui às vezes só
É aborrecido mas resisto, não tenham dó
E peço apenas que não me abandonem…




João Brito Sousa

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

COLOMBO SÓ DESCOBRIU A AMÉRICA
PORQUE ERA SOLTEIRO


Se Cristóvão Colombo fosse casado, seria obrigado a ouvir coisas assim e teria desistido:

- E por que é tens que ir?
- E por que é que não mandam outro?
- Estás doido ou és idiota?
- Não conheces nem a minha família e queres ir descobrir o novo mundo!
- E só há homens nessa viagem? Achas que eu sou parva?
- E por que é que eu não posso ir, se tu és o chefe?
- Desgraçado, não sabes o que inventar mais para sair de casa!
- Se cruzares esta porta eu vou-me embora para a casa da minha mãe. Miserável!
- Quem é a Pinta? E quem é essa tal Nina?
- Tinhas tudo planeado, maldito! Vais mas é encontrar-te com umas galdérias!...
- Pensas que me enganas?
- A rainha Isabel vai vender as suas jóias para tu viajares? Achas que eu sou maluca ou o quê? O que é que tens com essa cabra velha?
- Não vais a lugar nenhum! Vais é cair num barranco porque o mundo é achatado, seu idiota!



origem
encontrado na net


Saudações Costeletas
António Encarnação
A MINHA ESTADIA EM ANGOLA
Por João Brito Sousa


Cheguei a Luanda em 12 de Fevereiro de 1984 e segui, uns quinze dias depois, para zona diamantífera na Lunda Norte, porque fui colocado no Gabinete de Contabilidade de Custos da Companhia de Diamantes de Angola.

Eu e o Auditor Geral da Companhia, fomos quatro vezes ao aeroporto de Luanda, para apanharmos o avião para a Lunda, cuja deslocação durava duas horas.
- Bom dia Cámárádá. És cooperanté ? Os bilhete de identidade e a guia de marcha...Sim está em ordem.
Com um ar muito sério, põe cuidadosamente o carimbo na guia de marcha, registando a saída de Luanda. Era fundamental a guia de marcha, era o documento emitido pela Segurança do Estado e que permitia teoricamente controlar as deslocações dos cidadãos. Sem este documento não se podia circular fora das cidades.
- Podes pássár cámárádá. Diz o soldado da segurança com um sorriso. Ágorá vais práquele banco, prá revistá dás bágágens.
O Tiago abriu a mala sobre o banco comprido de taberna onde dois soldados da segurança lhe revolveram a roupa, os livros e os maços de tabaco...
-Sim podes ficar com dois maços - Obrigado cámárádá- agradeceu o soldado com um sorriso de criança. Aqueles dois maços já podiam ser trocados por uma lata de leite para os filhos.

JBS

domingo, 7 de novembro de 2010

O VELHO E A GAIVOTA (cont)
Por João Brito Sousa

Dr. vamos sentar-nos na biblioteca, quero falar com o senhor.
- Ok. Vamos. Diga, disse o Guedes já sentado.
- O senhor sabe, disse eu, que eu trago comigo um problema igual ao seu. Apaixonei-me igualmente pelo enigma dum velho, que talvez seja o seu velho. Aconteceu-me a mim o mesmo que ao senhor. Foi no mesmo jardim, pelo menos. Vai lá voltar?
- Sim, hoje. Ele diz que estará lá hoje de tarde, disse o Guedes.
- A que horas?
- Não diz. Se quiser, apareça na sexta feira de tarde, foi o que disse. Venha ver se a gaivota veio, se também está. Tenho um grande problema, disse.
- E não falou em desgostos ? perguntei eu.
- Sim falou, Grandes, que teve grandes desgostos, disse-me o velho
- Bom, o que é que o senhor acha disto? Somos nós ou o velho que estamos doidos ? O mundo está mal e nós estaremos melhor, indaguei eu.
- Não sei. O velho cativou-me e parece ter coisas para me dizer. O problema dele deverá ser aliciante. Ele fala dum modo esquisito, quer dizer, pareceu-me falar num misto de saudade e negligência. Pareceu-me, pelo menos, disse o Guedes.
- Mas isso não é relevante, deve haver aí mais qualquer coisa para que o senhor se entusiasmasse assim tanto com um problema que é doutros. Eu estou a dizer-lhe isto mas também estou nessa, preocupar-me com um problema que não é meu mas que eu quis que fosse meu. Não percebendo como. Penso que isto só tem uma solução que é irmos falar com o velho de novo, disse eu.
- Os dois ? perguntou o Guedes.
- Sim, o Dr. tem o encontro marcado, vai á frente e dirige-se a ele. Eu fico por ali, a andar de um lado para o outro e logo se vê.
- Concordo. Então vemo-nos logo, disse o Guedes
- Até logo.
Quando eu cheguei ao jardim já o Dr. Guedes estava sentado no banco com o velho, que estava virado de costas, olhando, talvez na direcção da gaivota. Fui em direcção ao banco onde estavam sentados os dois cavalheiros e disse boa tarde. O Guedes respondeu mas o velho não. Aliás, passado algum tempo, perguntou.
- Os senhores conhecem-se?
- Sim, disse eu
- Mas porquê os dois aqui, a esta hora, perguntou o velho.
- O senhor disse-me se eu quisesse vir hoje, poderia vir, disse o Dr. Guedes.
- Sim, mas o senhor é uma ou duas pessoas ?
- Somos duas pessoas que temos o mesmo problema, ou seja, temos ambos um problema único, aliás como o senhor, que tem um grande problema, não é verdade, perguntou o Guedes.
- Então e que pretendem, perguntou o velho.
- Conhecer de perto o seu grande problema. Eu e este senhor temos essa curiosidade, porque o senhor falou com tal ênfase desse problema que nos deixou intrigados, disse o Guedes.
- É uma questão interna, pessoal, do meu foro íntimo, está a ver.
- E é grave, pode-se saber? indagou o Guedes.
- Amanhã, a esta hora aqui, se acharem bem. E se a gaivota vier, claro.
- Ela hoje veio? perguntei a propósito.
- Veio claro. Se ela não estivesse eu também não estava.
- Porquê, perguntei.
- Amanhã, disse o velho.
E foi-se embora.
SER JOVEM, SIM

Para o Romão da Náutica.


Meu amigo, um homem nunca envelhece
E mesmo na casa dos setenta não desanima
Há coisas que só ele sabe e nunca esquece
E deve viver a vida com melodia e rima ...

Digo-te isto por te saber um poeta da vida
E assim não tens direito a desistir; resiste
A estrada a percorrer é bastante comprida
Mas dizer não, não, essa palavra não existe

Meu caro poeta, aceita um abraço amigo
Um voto de confiança quero deixar contigo
E a tua vida será a mais bela flor do jardim

A vida não é o presente, mas sim, mais o agora
Dificuldades, muitas, mas o homem não chora
E considerar-se velho não; mas ser jovem sim


João Brito Sousa

sábado, 6 de novembro de 2010

PONTO DE ENCONTRO

O Mundo feminino em 2031

Conversa entre pai e filho, por volta do ano de 2031, sobre como as mulheres dominaram o Mundo:
- Foi assim que tudo aconteceu meu filho…
Elas planejaram o negócio discretamente para que não notássemos.
Primeiro elas pediram igualdade entre os sexos. Os homens, bobos, nem deram muita bola para isso na ocasião.
Parecia brincadeira. Pouco a pouco elas conquistaram cargos estratégicos:
- Directoras de Orçamento, Empresárias, Chefes de Gabinete, Gerentes disso ou daquilo…
- E aí, pai?
- Ah, os homens foram muito ingénuos…
Enquanto elas conversavam ao telefone durante horas a fio, eles pensavam que o assunto fosse telenovela …
Triste engano.
De facto, era a rebelião se expandindo nos inocentes intervalos comerciais.
“Oi querida”, por exemplo, era a senha que identificava as líderes …
“Celulite”, eram as células que formavam a organização. Quando se queriam referir aos maridos, diziam “o regime”.
- E vocês? Não perceberam nada?
- Ficávamos jogando futebol no clube, despreocupados …
E o que é pior_
Continuávamos a ajudá-las quando pediam. Carregar malas no aeroporto, consertar torneiras, abrir frascos de azeitonas, ceder a vez nos naufrágios… Essas coisas de homem.
- Aí veio o golpe mundial ?!?
- Sim, o golpe !!!
O estopim foi o episódio Hillary – Mónica. Uma farsa…
Tudo armado para desmoralizar o homem mais poderoso do Mundo! Pegaram-no pelo ponto fraco, coitado…
Já te contei, não é?
A esposa e a amante, que na TV posavam de rivais eram, no fundo, cúmplices de uma trama diabólica. Pobre Presidente…
- Como era o nome dele?
- William, acho… Tinha um apelido, mas esqueci… Desculpa filho, já faz tanto tempo…
- Tudo bem, pai… Não tem importância. Continue…
Naquela manhã a Casa Branca apareceu pintada de cor-de-rosa. Era o sinal que as mulheres do mundo inteiro aguardavam!!! A rebelião tinha sido vitoriosa!
Então elas assumiram o poder em todo planeta!
Aquela torre de relógio em Londres, chamava-se Big-Ben, e não Big-Betty, como agora…
Só os homens disputavam a copa do mundo, sabias?
Dia de desfile de moda, não era feriado…
Essa Secretária Geral da ONU, era uma simples cantora… Depois, trocou de nome, de Madonna, para Mandona!
- Pai conta mais…
- Bem filho… O resto tu sabes:
Instituíram, o robô “ Troca Pneus” como equipamento obrigatório em todos os carros…
A Lei do “Já pra casa”, proibindo os homens de tomar cerveja depois do trabalho…
E, é claro, a famigerada semana da TPM, uma vez por mês…
- TPM???
- Sim, TPM… A Temporada Provável de Mísseis… É quando elas ficam irritadíssimas e o mundo corre perigo de um confronto nuclear…
- Sssshhh !... Ouvi barulho de carro chegando…
Disfarça e continua picando essas batatas.

Luiz Fernando Verissimo  (mais um excelente trabalho deste grande autor)

Enviado para publicação por Ferreira Borges
O valor do figo


Sou por natureza, cultura ou por tradição, um individuo antiquado, de hábitos e costumes um pouco fora de moda, nos modernos tempos em que vivemos.Tal como outros Costeletas nossos amigos e de origem campesina, recebi dos meus anteriores, a minha horta que mantenho o melhor que sei e posso, mas cujo resultado económico é desastroso. Agricultura de passar cheques. Porém o prazer de, no Verão, dormir uma soneca à sombra daquela alfarrobeira onde o nosso antepassado também já descansou, de ver correr á nossa frente os "nossos" coelhos , ouvir o canto dos "nossos" melros e pintassilgos, observar a paciência e destreza dos "nossos " camaleões e ouriços, e de colher as uvas , os pêssegos, as amêndoas , as azeitonas ou os figos mais caros do mundo; esse prazer é indescritível.
É isso que costumo fazer. Depois há os figos secos que se enchem com os miolos de amêndoa canela e erva doce e torram no forno, ou os que se mandam destilar, para obter uma genuina aguardente que, segundo o segredo bem guardado, serve para fabricar também artesanalmente uns licores dos Deuses.
Há muitos anos, em Viana do Castelo na pastelaria do sr Manuel Natário, num Domingo de manhã, tive o privilégio de tomar o pequeno almoço com o escritor Jorge Amado e sua esposa Zélia, que eram intimos amigos do dono da casa, e ali ouvi da boca desse grande brasileiro, o maior elogio que alguma vez se fez do fruto da árvore em que judas se enforcou. Falou das propriedades calóricas dessas passas milagrosas, que dão energia aos desfalecidos, e fazem erguer um morto, só comparadas ás tâmaras da Tunísia ou do Egipto. Discursou de modo muito elogioso sobre o nosso grande Poeta ,Escritor e Presidente da Républica Manuel Teixeira Gomes ,que em determinada fase da sua vida teria exportado para o Brasil generosas ceiras e caixas de Figo Flor do Algarve,muito apreciadas por brasileiros , portugueses e imigrantes de todas as partes da Europa. E gracejou, dando uma amigável palmada nas costas do seu amigo Manuelzinho: melhor do que as passas do Algarve só as empadas de salmão ,e as meias luas deste grande capitão da gastronomia e da amizade.
Mais recentemente, um ex colega holandês que não via há 35 anos, encontrou-me via facebook, e informou-me que não aguentava mais as saudades de Portugal, onde tinha vivido, e trabalhado durante quatro anos.
Homem de rara sensibilidade e inteligência, tinha aprendido a falar fluentemente o português, em três mêses, tendo para isso adquirido a colecção "Obras Completas de Eça de Queiroz" da editora Circulo de Leitores. Agora vinha para visitar a exposição Filatélica do Centenário da República Portuguesa e revisitar os lugares e amigos que tinha conhecido ,nos anos loucos da "revolução à portuguesa"(sic) .E como ele muito bem diz, e quiz; as saudades mataram-se à mesa e com um bom vinho.No restaurante onde tantas vezes haviamos já confraternizado..
O comício e bebício decorreu num ambiente de grande alegria, amizade e desfolhar de recordações e vivências irrepetíveis.
Houve troca de lembranças, tiraram-se muitas fotografias , abraços e beijinhos .As senhoras estavam visivelmente emocionadas e rendidas a esta prova de amizade e estima .Ou talvez também saudosas de outros tempos bem vividos.
Como nunca sei o que oferecer de lembranças, mas sei que o Peter e a Joke não têm figos cheios de colheita própria, levei-lhes um saquinho de figos ,escolhidos recheados e torrados cá em casa.
Fez-me um discurso sobre os figos ,semelhante ao que eu havia escutado do escritor brasileiro, e abarbatou o saco, sem se lembrar da sua proverbial gentileza de oferecer aos amigos , ou ao menos às senhoras.
Hoje ao abrir o computador, tinha esta mensagem no correio:
Olá José:
Continuamos a disfrutar do calor energético e salutar do Sol português do Algarve, por intermédio da excelencia dos Figos que tens a sorte de produzir.Aqui os que compramos são da turquia, mas não tem amendoa e não tem o mesmo gourmet.
Estes estão a acabar.Agora estamos a reduzir a portion diaria, para que não acabem já.
Tens muita sorte ,por teres saude, ainda estaes em activo e viver em Algarve,que é a maior riqueza, depois da Familia.
Em próximo ano Novo, vamos encontrar no Algarve para comer sardinhas e beber do teu vinho.
Ainda podes produzir Figo do Algarve, e fazer uma joint venture, com uma empreza de chocolae,
porque os teus figos encoberts com chocolate e amendoa, são imenso melhores que as trufas de produção industrial.
Não esquecemos o jantar na Cabrinha,e a amizade de todos.
Bjos da Joke e Abraços
Peter

Não fazia idéia de que a cotação do figo estava tão alta no mercado Europeu.
Nem de que o figo cheio Algarvio poderia vir a tirar este jardim á beira mar plantado , da crise em que está atolado.
No próximo ano ,quando o meu amigo holandes, vier comer as sardinhas e beber do vinho que houver, vou mostrar-lhe os figueirais e amendoeirais Algarvios , fontes produtoras da principal matéria prima ,necessária á realização do negócio que me sugere.
Ou será que ele ainda me vai sugerir que plantemos o Algarve de imensos campos de túlipas?

J.Elias Moreno