terça-feira, 9 de agosto de 2011


SEGREDOS DO ALGARVE
Lina Vedes

A partir de 1947 comecei a frequentar a escola primária da Sé de Faro, situada na parte velha da cidade, na rua Rasquinho.
Todas as tardes, de bata branca, obrigatoriedade escolar, saía de casa perto do Largo da Palmeira carregando a pasta com o lanche, a sebenta, o livro único de leitura, uma caixa de madeira com tampa deslizante onde guardava o lápis de escrever, borracha e caneta de aparo.
Num desses anos de escola primária, a professora D. Maria Pires e suas estagiárias, lançaram a turma na descoberta do Algarve.
Cada uma de nós, individualmente ou em grupo, teria de encontrar motivos para amar não só a nossa cidade, como todo o Algarve.
A proposta de trabalho, inovadora para a época, foi tão bem lançada que de imediato toda a turma vestiu a capa de detective/investigador e partiu à descoberta dos encantos secretos da província algarvia.
Com alguma orientação fomos colocando, aos poucos no devido lugar, as peças do puzzle Algarve.
Todos os trabalhos seriam “passados a limpo” para folhas de cartolina, com letra bem legível e desenhos bem executados e bem pintados.
Fariam parte do nosso “Jornal de parede”.
Nessa tarefa nada foi esquecido.
Descobrimos que desde Sagres a Vila Real de Santo António, desde a serra ao mar, o torrão algarvio era pitoresco e encantador, com os costumes puros da sua gente comunicativa, que fala cantando desconhecendo as asperezas da vida, abençoados pelas dádivas da Natureza.
Como pertença deste paraíso, chamado Algarve, constatámos possuir um clima ameno, um céu azul intenso rutilante de estrelas, um sol fonte de luz e calor, um solo matizado inebriante de aromas, um mar, caldo azul, a espreguiçar-se pelas finas areias douradas ou moldando com os seus embates rochedos da costa.
ALGARVE! Um paraíso!
Ao executar o nosso trabalho fomos tomando consciência que havíamos nascido num local de privilégios e que teríamos, por obrigação, de protegê-lo e engrandecê-lo.
Páginas da história algarvia foram abertas e lidas com entusiasmo, enchendo-nos de orgulho, no desejo de tirar o exemplo deixado pelos antepassados.
Bastou olhar, compreender e deixar-nos enlevar, para encontrarmos um verdadeiro tsunami de encantos, todos eles, bem explorados e bem condimentados pelo povo serrenho e marítimo.
Pelo caminho da nossa pesquisa, fomos registando a alvura do casario com chaminés rendilhadas, açoteias/mirantes verdadeiras eiras para a alfarroba, figo, amêndoa.
Junto à casa o forno, o estábulo, a pocilga, o galinheiro, assim como o tanque e a nora puxada por burros de olhos vendados.
Árvores frutíferas sussurram os seus encantos.
A alfarrobeira com os seus frutos pretos pendentes, a oliveira calosa e paciente, a figueira envergonhada com os ramos virados à terra, a laranjeira a embebedar-nos com o seu intenso aroma ou a espantar-nos com o seu festival de frutos…
Nas propriedades divididas por muros de pedra solta ainda proliferam sobreiros, romãzeiras, nespereiras, marmeleiros, e…amendoeiras… ora viúvas de folhas, ora formando um mar de flores a perder de vista…
Procurámos e encontrámos ao vivo, o algarvio típico, o montanheiro, com o chapéu de feltro preto, a caminho do mercado, num carro puxado por bestas levando os produtos agrícolas para venda.
A mulher ao lado com o xaile, a sombrinha, o lenço, tendo por cima o chapéu de abas largas, trabalhadora de sol a sol, em casa e no campo, virtuosa na confecção de esteiras, capachos, cabazes.
Por natureza comunicativos, alegres e faladores, organizam com alguma regularidade festas, e ao toque do harmónio não falta o corridinho bem pulado ou o “balho” mandado por um mandador.
Não esquecemos no nosso trabalho a costa algarvia, bem recortada, com praias esplêndidas incutindo no marítimo o espírito aventureiro.
O nosso Algarve foi retratado com tanto pormenor e eficácia, que cativou toda a Escola, e até todos os alunos estagiários do Magistério.
Nessa tarefa/prazer foi realçada a beleza da ria, a vida dos pescadores e dos mariscadores, assim como as industrias daí resultantes – conservas, extracção do sal, construção naval.

Passaram 50 anos!
Povos provenientes dos mais variados locais e culturas encantaram-se com o nosso Algarve e muitos instalaram-se na nossa região. Juntaram-se a nós, uma miscelânea de saberes…
Teremos esquecido os nossos conhecimentos populares, os nossos hábitos, os nossos usos, os nossos costumes?
NÃO!
Talvez um pouco à deriva, durante a explosão invasora, mas na actualidade o algarvio voltou a “agarrar” as raízes da sua cultura. Voltou a sentir orgulho na terra que o prende e encanta. Voltou a ter a faculdade de ouvir o choro triste, o lamento da moura encantada, penteando os longos cabelos com um pente de ouro cravejado de diamantes…
Todo o nosso torrão é farto, é terra que prende e encanta e nos leva a tecer um hino de louvor ao ar, ao mar, ao sol, às flores, à vida!
Abrimos os braços aos nossos visitantes, introduzindo-os no seio das nossas vidas e hoje, os que por cá ficaram, são pertença do nosso Algarve e donos dos nossos segredos…
E…somos abençoados, ao poder destapar, cheirar e apreciar uma boa cataplana, um prato de xarém, uma caldeirada fumegante e uma sardinhada, comida num naco de pão…
Adoçando, ainda mais, o encanto das nossas vidas, podemos desembrulhar o d. rodrigo e saborear bolos de figo, de amêndoa moldados e saborosos.
Como remate, um cálice de medronho vindo directamente da serra algarvia…
O PARAÍSO está completo!!!!!!!!!!!!!!!

Lina Vedes – 29 – 07 - 2011

Como não tenho inspiração para escrever,
aqui vai este poema que gostei de ler.
Espero que gostem. Alfredo Mingau:


Passei toda a noite, sem saber dormir, vendo sem espaço a figura dela
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la,
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
E prefiro pensar dela, porque dela como é tenho qualquer medo.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só pensar ela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Fernando Pessoa

CARTAS A SANDRA, de Vergílio Ferreira

Cartas a Sandra, é uma compilação de cartas, que Vergílio Ferreira deixou escritas para a esposa e que a filha única e o juiz aposentado Rodrigo Xavier, seu colega de quarto e de tuna em Coimbra, decidiram publicar. O tema central é o amor entre o casal, mas o que VF deixa dito, pode servir para qualquer casal.
Vergílio não foi muito bem aceite pelos homens da literatura do seu tempo mas eu gosto da sua escrita. Á medida que vai escrevendo vai entrando numa construção filosófica da vida, o que levou António Loba Antunes a apelida-lo de “O Sartre de Fontanelas”
Diz VF que tem a impressão que o vocabulário amoroso é restrito, tanto mais restrito, quanto mais intensa é a paixão.
Ora, em minha análise, a paixão é o primeiro embate a enfrentar quando alguém nos atrai e aí, para explicar esse momento, é preciso haver palavras com tal força, suficiente, que saibam traduzir essa intensidade que a atracção provocou em nós.
Todo o livro é saudade duma juventude que já não volta. “Guardaste as cartas que eu te escrevi? perguntou à esposa. Não, rasguei-as, disse ela com um sorriso breve e repreensivo. E porque havia de guardá-las? Gostava de as reler, disse ele.”
São estes pequenos pormenores da literatura que, se não nos fazem felizes não deixam que nos tornemos infelizes, como disse Vargas Llosa.
“Aliás não cheguei bem a entender esse modo exclusivo de seres citadina. Porque na cidade vive-se sempre na rua, mesmo que se esteja em casa.” Sensibilidades diferentes que não impediram o amor.
Trata-se de um pequeno romance, composto essencialmente por dez cartas de amor, O ideal do amor, já sobejamente dissecado em «Para Sempre», é neste romance ainda mais sublimado em cartas escritas por Paulo à sua amada após a sua morte. A catarse de um amor inesgotável, descrito das mais variadas formas, um amor tão forte que todas as palavras não o conseguem circunscrever e onde a dimensão metafísica desempenha um papel apaziguador no desespero obsessivo de Paulo na evocação da memória de Sandra.
“Sandra, a Xana esteve aqui dois dias com o miúdo e foi-se ontem. Desde há uns tempos que ela telefona menos. Não sei se estavas viva quando o companheiro a deixou. Aliás nunca o vimos.”
A literatura de VF é intimista e familiar, colocando a vida real ou a realidade da vida nas suas obras. É um escritor que tinha coisas para contar e tinha sempre presente o romance e a necessidade de o fazer.
Mas, de todo em todo, «Cartas a Sandra» representa um hino ao amor numa toada filosófica que abre ao leitor perspectivas muito interessantes sobre o tema e a muitos outros que com este se relacionam - amizade, ciúme, sexo, etc.
“Mas eu estremeci e amamo-nos longamente no deserto da montanha. E tu aceitaste a minha invasão e vibraste comigo num espasmo de prazer e de susto, não sei bem…”

E assim termina a obra. E eu também por aqui me fico.





PARA TODOS OS COSTELETAS
UM POEMA

VIAJAR
Vai, vai conhecer outras culturas
Mas não fiques lá, traz novidades
Coisas novas; testadas e maduras
Que façam mudar as mentalidades

Um mundo novo, sim é preciso
Mundo com carinhos e sem dores
Mundo onde o amor seja decisivo
Com jardins recheados de flores

Para uma bonita rosa oferecer
À minha namorada com prazer
E juntos a possamos ao céu elevar

E no erguer da rosa vai o nosso amor
E a esperança dum mundo melhor
Que é o que peço tragas ao regressar


João Brito Sousa

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

 

HIPOCRISIA OU VERDADE

Alfredo Mingau

Sempre escutei, de tudo e de qualquer lado, aquela velha história de que homem não presta. Calma…!

Na minha opinião cada um tem o que merece, do tamanho certo, da cor certa e com o jeito certo. Na hora que as mulheres generalizam a classe masculina estão defendendo uma hipótese que não é verdadeira e, de certa forma preconceituosa...

Do mesmo jeito que elas afirmam que somos machistas, elas cometem um engano. Adoro ler o que elas escrevem, penso se serão sinceras e realistas. Existe homem bom sim... e se não conhecem um, deve ser porque não devem merecê-lo. às vezes a oportunidade já lhes bateu na porta e a negaram, NÃO ABRIRAM A PORTA! Abrir os olhos de vez em quando funciona, mais do que meter o pau e generalizar a classe.

Um exemplo clássico foi quando as mulheres decidiram assumir o papel do homem na sociedade... Calma, não vou ser machista. A minha crítica vai além deste breve comentário, a grande questão é que as mulheres deixaram de ser mais sensuais, femininas e acabaram assumindo uma rotulagem não muito conveniente. "Mulher que é mulher é a mulher-macho". Porque? Homens gostam de mulheres que se apresentem bem, que saibam utilizar um perfume de forma exacta, ou mesmo as bijutarias. Não sou fã de mulheres que andam largadas.

Do mesmo jeito, as mulheres já rotulam homens que se apresentam e tomam banho como homossexuais. Onde este mundo vai parar meus amigos? Esta é a grande pergunta deste comentário lançado. Assim como pode existir a falça (sic!) democracia que hoje está na boca de todos aqueles que sabem falar um básico português (não me censurem por não usar a nova ortografia), pode existir a verdadeira hipocrisia. Lá dizia o pai dos burros, que hipocrisia é a "Impostura, fingimento, simulação, falsidade". Mesmo que esteja vinculada a crescimento mental!

Eu sou meio perdido, os pensamentos voam. Mas será por isso que este comentário poderá chamar-se Maluco?


A CULTURA DO SLOW DOWN

EXCELENTE ARTIGO PARA LER COM ATENÇÃO E MEDITAR SOBRE O SEU CONTEÚDO


Há já mais de 20 anos que ingressei na Volvo, empresa sueca bem conhecida.
Trabalhar nesta empresa é uma convivência muito interessante. Qualquer projecto aqui demora dois anos a concretizar-se, mesmo que a ideia seja brilhante e simples.
É uma regra.
Os processos globalizados causam-nos a nós (portugueses, brasileiros, venezuelanos, mexicanos, australianos, asiáticos, etc.) uma ansiedade generalizada na busca de resultados imediatos. Consequentemente, o nosso sentido de urgência não surte efeito dentro dos prazos lentos dos suecos.
Os suecos debatem, debatem, realizam “n” reuniões, ponderações, etc.. Trabalham com um esquema bem mais Slowdown.
O melhor é constatar que, no fim, acaba por dar sempre resultados no tempo deles (suecos) já que conjugando a necessidade amadurecida com a tecnologia apropriada, é muito pouco o que se perde na Suécia.
Resumindo:
1)- A Suécia é do tamanho do Estado de São Paulo (Brasil).
2)- A Suécia tem apenas dois milhões de habitantes.
3)- A sua maior cidade, Estocolmo, tem apenas 500.000 habitantes (compare-se com Paris, Londres, Berlin, Madrid, mesmo Lisboa… ou cidades balneares como Mar del Plata, na Argentina, onde vivem permanentemente 1 milhão de pessoas, ou ainda Rosário com 3 milhões).
4)- Empresas de capital sueco: Volvo, Skandia , Ericsson, Electrolux, ABB, Nokia, Nobel Biocare, Etc, nada mal. Para se ter uma ideia da sua importância basta mencionar que a Volvo fabrica os motores de propulsão para os foguetes da NASA.
Os suecos podem estar enganados, mas são eles que me pagam o salário e devo referir que não conheço nenhum outro povo com uma cultura colectiva igual à deles. Vou contar-vos uma pequena história, para ficarem com uma ideia:
A primeira vez que fui para a Suécia, em 1990, um dos meus colegas suecos ia todas as manhãs buscar-me ao hotel. Estávamos em Setembro já com algum frio e neve.
Chegava-mos cedo à empresa e ele estacionava o carro longe da porta de entrada (são 2000 empregados que vão de carro para a empresa). No primeiro dia não fiz qualquer comentário, nem no segundo, nem no terceiro. Num dos dias seguintes, já com um pouco mais de confiança, uma manhã, perguntei-lhe:
- Você tem aqui lugar fixo para estacionar? Chegamos sempre cedo e com o parque vazio, estacionas sempre longe da porta, num extremo do parque!...
Ele responde-me com simplicidade:
- É que como chegamos cedo temos tempo para andar e quem chega mais tarde se não estiver lugar disponível mais perto já vai entrar atrasado, por isso é melhor para ele encontrar um lugar mais perto da porta!... Não te parece?
Imaginem a minha cara! Esta atitude foi o bastante para que eu revisse todos os meu conceitos anteriores.
Actualmente há um grande movimento na Europa chamado “slow Food”. A “slow Food International Association” cujo símbolo é um caracol, tem a sua sede em Itália ( site na internet é muito interessante). www.slowfood.com
O que o movimento preconiza é que se deve comer e beber com calma, dar tempo para se saborear os alimentos, desfrutar a sua preparação, em família, com amigos, sem pressa e com qualidade.
A ideia é a contraposição ao espírito do Fast Food e o que ele representa como estilo de vida.
Verdadeiramente surpreendente é que este movimento está a servir de base para um outro mais amplo denominado “Slow Europe” como referiu a revista Business Week, numa das suas últimas edições europeias.
Na base de tudo isto está o questionamento da “pressa” e da “loucura” geradas pela globalização, pelo desejo de “ter em quantidade” (nível de vida) em contraponto ao “ter em qualidade”, ( “qualidade de vida” ou “qualidade de ser”).
Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses, ainda que trabalhem menos horas (35 por semana) são mais produtivos do que os seus colegas americanos e ingleses. E os alemães que em muitas empresas já implantaram as 28,8 horas semanais, viram a produtividade aumentar uns apreciáveis 20% .
A denominada “slow attitude” está a chamar a atenção dos próprios americanos, escravos do “fast” (rápido) e do “do it now” (faça já). Portanto esta “atitude sem pressa” não significa fazer menos nem ter menor produtividade. Significa sim, trabalhar e fazer as coisas com “mais qualidade” e “mais produtividade”, com perfeição, com atenção aos detalhes e com menos stress.
Significa retornar aos valores da família, dos amigos, do tempo livre, do prazer do belo e da vida em pequenas comunidades.
Do “aqui” presente e concreto, em contraposição ao “mundial” indefinido, anónimo.
Significa retomar os valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do quotidiano, da simplicidade de viver e conviver e até da religião e da fé.
Significa um ambiente de trabalho menos coercivo, mais alegre, mais leve e como tal mais produtivo, onde os seres humanos realizam com prazer o que melhor sabem fazer.
É saudável reflectir sobre tudo isto. Será que os antigos provérbios: “devagar se vai ao longe” e “a pressa é inimiga da perfeição” merecem novamente a nossa atenção, nestes tempo de loucura desenfreada?
Não seria útil e desejável que as empresas da nossa comunidade, cidade, estado ou país, começassem já a desenvolver programas sérios de qualidade sem pressa, para aumentarem a produtividade e a qualidade dos produtos e serviços sem necessariamente se perder a “qualidade dos ser” ?
No filme “Perfume de mulher” há uma cena inesquecível na qual o cego (interpretado por Al Pacino) convida uma jovem para dançar e ela responde: “não posso, o meu noivo deve estar a chegar” diz-lhe então cego: “ num momento vive-se uma vida” e leva-a a dançar um tango. É o melhor momento do filme, esta cena que demora apenas, dois ou três minutos.
Muitos vivem a correr atrás do tempo, mas só o alcançam quando morrem, quer seja de enfarte ou num acidente na auto estrada por correrem para chegar a tempo.
Ou outros que, tão ansiosos para viverem o futuro, esquecem-se de viver o presente, que é o único tempo que realmente existe.
O tempo é o mesmo para todos, ninguém tem nem mais nem menos do que 24 horas por dia. A diferença está no que cada um faz do seu tempo, temos que saber aproveitar cada momento, porque segundo disse John Lennon, a vida é aquilo que acontece enquanto planeamos o futuro.

Enviado por: António Palmeiro

O presente texto é uma descrição feita por um português a trabalhar na Suécia e cujo nome desconheço. Recebi através de amigos que também desconhecem o nome do autor.
Quero no entanto referir que, numa opinião muito pessoal, acho que o nosso patrício vive noutro mundo, felizmente para ele, por aqui, no tal cantinho, precisamos de 100 anos, para chegar lá.
António Viegas Palmeiro

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domingo, 7 de agosto de 2011


DEIXA QUE ESSA EU CONTO

Alfredo Mingau

Um dia destes encontrava-me meio enfadado na frente do computador. A tela em branco e um branco na mente. Não me vinha uma ideiazinha sequer para começar uma nova crónica, mesmo daquelas sem pés nem cabeça. Por mais que me esforçasse, acabava achando que não iria conseguir escrever nada. Achei que fosse porque vivia estes últimos tempos escrevendo crónicas sem ninguém para compartilhá-las ou comentá-las era, realmente, uma coisa um pouco triste não ter ninguém para compartilhar uma ideia, por mais maluca que seja dá sempre inspiração.
“Afinal, existem tantas crónicas pelo avesso sendo publicadas hoje em dia que, uma a mais, ou a menos, não faria diferença!”. Pensei sem nada escrever porque não estava nem um pouco inspirado. Se não estava inspirado, não tinha nada para escrever; se começasse a escrever sem inspiração, algumas linhas após o início, já não teria mais nada para contar, ou então, ficaria maçante e chato, sem pés nem cabeça, meio pelo avesso. Mas não era dessa forma que eu costumava escrever. Meio pelo avesso e sem pés nem cabeça?. deixa prá lá!. Vá lá entender estes escritores malucos!.
Pensei em todas essas possibilidades. não é fácil escrever quando a gente não está inspirado, “principalmente histórias atrapalhadas para confundir o leitor Costeleta!”. E que até alguns gostam, mas não comentam.
Quem inventa regras é inventor e não escritor. Como é que um crítico pode achar-se o tal com suas opiniões se, não foi ele quem sentiu a história quando ela estava sendo concebida? Aí é que está a discrepância toda! O crítico da história é o próprio escritor. Além da história, é claro. Mesmo porque, o escritor vive discutindo com sua própria história. e a história discutindo com o escritor. Isto não quer dizer que todos sejam da mesma opinião. E aqui abro um parêntesis para afirmar que gosto de ler os comentários que me fazem, principalmente do Mestre escritor Costeleta João Brito de Sousa com a sua critica saudável mas que, ultimamente, me tem esquecido.
“A liberdade de expressão existe para que, cada um possa expor seu ponto de vista”.
Dentro do meu subconsciente ouvi uma voz a interpelar-me:
“Deixa que essa eu conto, eu sou a história”.
Achei que a voz estava tomando o meu lugar e impondo.
Como me encontrava sem inspiração deixei que a “história” contasse a sua própria história, afinal ela tinha seus direitos
E a “história” começou com o seu “blablablá” e coisa e tal,t oda atrapalhada e perdida; começou enrolando; foi chegando na metade ainda mais enrolada. Fiquei desconfiado que a “história” não sabia o que fazer, e o que contar, ia chegar ao final daquele jeito: contando sem contar coisa alguma, mais enrolada que novelo de lã. Então disse-lhe:
“tas querendo me enganar?!”.
E a “história” nem se calou, continuou no seu “blablablá”que parecia não ter fim, enquanto eu começava a perder a paciência com tanta lengalenga.
Então, além de enfadado, aqui o Alfredo passou a ficar impaciente com aquela história mais estranha do que as que ele costuma escrever. “Para contar uma coisa dessas, mesmo sem inspiração, eu mesmo contava”. Pensei e disse, cortando o blablabla da “história”:
“basta!”, ordenei peremptório.
A “história” deu um sorriso amarelo, sem graça e foi saindo de mansinho, sem pedir licença, da mesma forma que chegara, desapareceu.
“Mas que droga! nem uma ideia maluca me ocorre neste momento!” Pensei.
Foi por isso que, naquele dia, nada escrevi. Estava cansado de histórias malucas que, na falta de inspiração, apareciam-me sem pés nem cabeça.
“Histórias sem pés nem cabeça, conto eu, bolas!”, disse desligando ocomputador, guardando o bloque-notas e canetas e desistindo das histórias. Achara por bem não insistir, já que, não tinha a mínima ideia do que poderia ocorrer depois de ouvir novamente aquela voz pedindo:
“Deixa que essa eu conto!”.

Para contar até quando? - AM

2011 –Para onde caminhamos?

O que se lobriga é um tão grande negrume,
Que nos faz medo, que nos faz mesmo vacilar;
Que faremos para manter ainda aceso o lume?
Por este malfadado andar, onde iremos parar?


Tudo o que vemos e ouvimos faz-nos pensar,
Como toda a terra por uma nuvem está cercada,
Que cada vez mais e mais se está a adensar,
Para a dissipar sentimos não poder fazer nada!


Ainda ontem o irmão dava a mão ao irmão,
Ajudava-o, era seu amigo, sem nada dele esperar,
Hoje trata-se o outro como se fosse um vilão,
Que há que espremer, para dele tudo se tirar!


Era muito mais parco ontem o ser humano,
Mas nem por isso parecia menos contente.
Será feliz hoje que o exploram até ao tutano,
Que come, e vive gordo e sumptuosamente?


Hoje anda-se em frente, rápidos, com pressa,
Há muito pouco tempo para ajudar alguém;
Negócios, dinheiro, é só o que nos interessa,
O outro é um número , um Zé ninguém!


Mais que nunca, gato por lebre vendemos,
O embuste, o supérfluo consumo promovemos;
É isso que nós descontraídos e sonsamente fazemos;
Sem remorso! Será que nos arrependemos?


Para quê trezentas marcas de creme de barbear?
E três mil marcas de vários perfumes,
Onde é que tudo isto e mais aquilo nos fará chegar?
Melhor seria que a tal fossemos imunes!


Os países estão à beira dum desastre colossal,
Não há motorista capaz de travar a composição,
Que caminha para um descarrilamento monumental,
Independentemente de tal querermos ou não!


Ao longo dos milénios isto tem-se repetido,
Ao alcatruzes ora vêm cheios, ora vazios;
Alterar o rumo faria todo o sentido!
Mas, para que lado corre a água dos rios?


E contudo mesmo assim temos de viver,
De lutar, perseverar, sem nos deixarmos abater!
Mesmo assim viveremos porque tem de ser!
Mesmo assim esse será o nosso querer!

Manuel Inocêncio da Costa

sexta-feira, 5 de agosto de 2011


ERA... NAQUELE TEMPO

Alfredo Mingau


"... Era um tempo em que tudo se fazia tremendamente simples.
Os sorrisos rasgados eram consequências de situações de amizade.
Liberdade era sinónimo de poder brincar e ficar sujo, sem tempo contado.
As maiores frustrações decorriam de mau desempenho de fazer.
As grandes dores eram causadas por ferimentos no corpo.
A tristeza era sempre passageira, não ousava vir para ficar.
Os melhores amigos eram companheiros de todas as horas.
Os pais, super-heróis.
Houve um tempo em que tudo era tremendamente simples.
Sábado à noite, no Verão, era apenas a oportunidade de brincar com os amigos no Jardim Manuel Bívar.
Sucesso era passar de ano sem chumbar para repetir
Os desentendimentos eram resolvidos pela dinâmica porrada, pedido de desculpas dos pais, e puchão de orelhas.
Alegria acima de todas as expectativas era o primeiro dia de férias de verão.
Competitividade era somente o que tornava aqueles jogos de “hóquei” na nossa rua, em que as balizas eram as sargetas
Amor era um sentimento puro, que não causava dor, geralmente platónico
A noite de natal era mágica, com a alegria de manhã, ao encontrar na chaminé um par de peúgas e uma tablete de chocolate; o Pai Natal era um grande camarada. Os ovos de Páscoa causavam euforia.
Programa de férias era assistir ao Sábado no cinema Santo António, à matinée, aos filmes do Abot e Costelo.
Naquele tempo tudo era tremendamente simples.
E tem dias que o fantasma doce dessa simplicidade lança olhares espantados, como que perguntando “quando foi que a vida ficou tão complicada...?"


E agora “moces”, malta jovem, “neste tempo” para complicar as férias as aulas começam ou recomeçam já no dia 8 de Setembro.


Guerra Junqueiro - Muito Actual !

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,
aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias,
sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que
um lampejo misterioso da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,
não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha,
sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,
descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação,
da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador; e este, finalmente,
tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,
incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos,
iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,
e não se malgando e fundindo, apesar disso,
pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro, 1896.

Enviado pelo Maurício

Produto Nacional
Figos e Amêndoas do Algarve

O artigo sob o título acima do Colega Palmeiro publicado em 2011.07.12, fez-me lembrar duas viagens que em tempos fiz à zona de Granada/Gibralter, para visitar um agricultor conhecido. Posteriormente, o Jornal de Monchique também viu figos da Turquia vendidos como lembrança do Algarve. – Não lhes chamava “secos”. Chamava-lhes “pecos”, cujo termo nós conhecemos.
Isto daria para rir, não fosse o estado calamitoso a que fizeram chegar a nossa agricultura.
Para não estar só à janela como muito bem disse o nosso amigo JEM, saí à rua...

---oooOooo---

Por volta de 1968, na descida abrupta de Granada para Motril vi um agricultor apanhar amêndoas em zona tão acidentada que se segurava a uma corda, (algo que aqui também já vira com a apanha de alfarroba, o que, em termos de rendimento não podia contar para as estatísticas).
Mais tarde, cerca de vinte anos após, numa zona próxima, ao pretender visitar um agricultor granadino, encontrando-me numa encruzilhada junto a uma plantação de oliveiras encontrei outro agricultor, com o seu Jeep, perguntei-lhe onde iria dar aquele caminho rural, ao que ele me respondeu ... “solo Dios sabe”...
Eu pretendia encontrar a herdade e chegar de surpresa e perguntava pelo tal agricultor mas sem referir o seu nome, o que não resultou.
Kms. mais à frente, parei e perguntei pelo agricultor de destino mas referindo o seu nome, disseram-me de imediato – é o Eng. da Azucarera - (fábrica de açúcar de cana em Motril) – pelo que vi que estava no caminho certo.
Encontrado o agricultor e, depois dos cumprimentos iniciais, foi-nos servido um repasto de “habas”, seu prato típico. Passamos pela herdade. Para seu recreio tinha um pouco de quase tudo, - cavalos, ovelhas, coelhos. Com a charrete e cavalos já ganhara prémios em Málaga. O terreno, constituído por socalcos devido ao acidentado do relevo era composto quase exclusivamente por oliveiras e amendoeiras. Via-se, lá nos píncaros, a uns vinte quilómetros, esbranquiçar, a neve da Serra com o seu nome. Por ser época de azeitona estavam as árvores carregadas e a apanha, marcada para breve, era feita em grupos e com rapidez.
Quanto às amendoeiras, já o fruto tinha sido apanhado na época própria e, ao contrario das nossas não tinham uma amêndoa por recolher. Intrigado, perguntei-lhe como apanhava tanta amêndoa, ao que ele me respondeu: – “com um maço de goma”.
Apercebi-me então que apanham a amêndoa em equipa de pessoas que seguram no panal enquanto uma delas bate com o maço de borracha no tronco da árvore, previamente podada para suportar o embate, não caindo a amêndoa ao chão. São acompanhados a poucos metros pelo mini-tractor, devido ao relevo do terreno, com a caixa acoplada. A caixa do tractor é alta. Como as nossas. Uma vez cheia de amêndoa, vai para a organização agrícola. Ao ser pesada é-lhe retirada por cada abertura da caixa, onde cabe uma mão, cerca de 1 kg. de amêndoa, para conhecer a densidade, humidade, verde, etc. Após isso sabe quanto irá receber. Amêndoa em sacas? – Não sabem o que é isso.
No Alentejo, parece que hoje, passados outros vinte anos já se pratica o mesmo processo, mas, parte dessa amêndoa deve ir a salto para outras paragens, já que os donos não são de cá.
Quanto à nossa, varejada com a tal “vara de castanho”, caindo sobre os cardos, resta-nos invocar o Emiliano da Costa.
Júlio Dantas dizia, há muitos anos, no assalto ao convento: “Tanto livro - e ninguém nos ensinou a ler”. Nós poderíamos dizer: Tanta amendoeira e nada nos motivou para a sua apanha.
Um abraço.
Romualdo.