quinta-feira, 21 de outubro de 2010

DO CORREIO ELECTRÓNICO

Outubro de 2010
Aquela mina lá no Chile

Por dá cá aquela palha,
Capaz de esfolar, matar;
Não há piedade que lhe valha,
Bárbaro mais que milenar!

Sanguinário, por vezes cruel,
Como sofrendo duma maldição;
Podia bem ser doce como o mel,
Fugindo à fúria da destruição!

Por vezes, porém, para salvar,
Vai muito além do dever,
Demonstrando o outro amar
Por ele capaz de morrer!

Então o Sol sua alma ilumina,
Tornando-se ser de perfeições mil,
Atingindo altura quase divina.
Olhai –aquela mina lá no Chile!

Inocencio da Costa

Qué es poesia?-dices mientras clavas en mi
pupila tu pupila azul?
Qué es poesia? Y tu me le preguntas?
Poesia,,,eres tú!
Bécquer
A PESCA NA RIA

Por se tornar um pouco extenso para ser aceite como comentário, preferi escrever este texto enquadrando-o na síntese dos comentários ao meu texto “Marés Vivas”.Ao Diogo já respondi. Passo, portanto, a abordar o enunciado do meu amigo Zé Moreno (José Elias Moreno) com residência em Faro na rua que fica em frente da nossa Escola, rua onde já nos temos encontrado para “dois dedos de conversa”. Faço aqui um interregno para exclamar: A intriga está feita!...
E vamos ao “miolo” do teu comentário Zé.
Sobre o “moinho de maré” da saudosa moleira Francisquinha Grelha (Moinho do Grelha), situa-se à direita de quem está virado para a ria, da então chamada Praia da Torrinha, daí o moinho ser conhecido por “Moinho da Torrinha”. Era constituído pela casa do moinho, com as duas mós de pedra sendo a de baixo fixa e a de cima rotativa para moer o grão que ia caindo no buraco central da rotativa. A mó de cima era impulsionada pela força da água que corria por baixo pela “levada”, canal que estava ligado à lagoa artificial por uma comporta. A lagoa estava ligada à ria por outra comporta que era aberta manualmente quando da baixa-mar, e fechada na preia-mar. O moinho só poderia trabalhar durante a baixa-mar, abrindo a comporta da “levada” e pôr a mó a rodar com o impulso da água. E o ciclo repetia-se.
Quanto às pescarias de que falas na ria, o amigo Encarnação já adiantou umas dicas, mas gostaria de acrescentar como elas eram feitas pela minha experiência pessoal.
A pesca dos chocos, tão saborosos fritos com tinta, fazia-se de duas maneiras; de dia com uma rede presa a três canas formando um triângulo, e a que se dá o nome de “xalrão”, pegando nas duas canas e arrastando para a frente durante um certo tempo até levantar a rede e extrair os chocos que lá se encontravam. De noite com uma lanterna (petromax) e uma fisga. Tudo isto feito na maré baixa. Com o xalrão com água pela cintura e à fisga com àgua até ao meio da perna.
Com o mesmo candeeiro, de noite durante a baixa-mar, íamos para os cabeços ou ilhotes apanhar as bocas dos caranguejos “cava terra”. Ao centro o do candeeiro e um de cada lado apanhavam os caranguejos arrancavam as bocas e largavam os caranguejos. E é interessante saber que no lugar da boca arrancada uma nova torna a nascer e a crescer. O candeeiro servia para encandear os caranguejos para não fugirem.
Recordo de apanhar peixe com a “redinha”. Uma rede de arrasto com chumbos em baixo e pequenas bóias de cortiça em cima. Não é muito comprida, entre 5 a 10 metros. Durante a baixa-mar e é arrastada nas pontas para um cabeço ou para a praia e aí retira-se o pescado, geralmente constituído por chocos, robalos, sargos, mucharras, peixe rei e camarão. Geralmente a maior quantidade é de peixe rei. Recordo que a última vez que fui a esta pesca apanhámos um choco e cerca de 5 quilos de peixe rei. E fomos apanhados pela polícia marítima. Ficámos sem a rede.
Os alcabozes, geralmente a malta chama “cabozes”. Um petisco delicioso fritinho é geralmente apanhado preferencialmente junto dos esgotos. O lingueirão, apelidado de “cabos de faca”, dá uma grande publicidade à comida Algarvia no seu “arroz de lingueirão, é normalmente apanhado de duas maneiras. Por arrasto ou com uma vareta de bico de fisga, chamada “adriça”, que se espeta no buraquinho, onde eles vivem, em forma de buraco de fechadura. Recordo que o saudoso Franklim se entretinha bastante na apanha do lingueirão com a adriça. Esta pesca é feita nos ilhotes com a baixa-mar e em seco. Também há quem o apanhe com sal grosso deitando para dentro do buraco. O sabor a sal faz com que eles saiam e…
Quanto ao “tapa esteiro” é uma pesca considerada criminosa. Trata-se de duas redes que são colocadas num canal, durante a baixa-mar, tapando os dois lados. Quando se dá a baixa-mar os peixes não têm saída acabando por ficarem em seco e morrem. Os pescadores vão retirá-los tirando apenas os maiores.
Temos, também, a conquilha apanhada na costa e a amêijoa e o berbigão na ria com a baixa-mar.
Muitas outras espécies tais como berbigão, búzios, ostras, mexilhões, burrieis (caracol do mar) camarão pequeno, caranguejos sem esquecer as enguias e irós que eram apanhadas à fisga na doca, quando a doca era um atoleiro de lodo negro, criado pelos esgotos da cidade que para ali estavam canalizados.
Era assim a pesca “desportiva” proibida. Hoje, existe muita fiscalização.
Era giro! A malta divertia-se e comia bons petiscos.

Alfredo Mingau

DO CORREIO ELECTRÓNICO

SOBRE TEXTO DE MARÉ VIVA,
COMENTÁRIOS E RESPOSTA.

O que tenho a comentar é que são mesmo muito BONS ! ! !


Acrescentando que ler factos ocorridos há mais de 55 anos e sobre os quais não se encontram registos na Net , nos traz cá uma saudade!
A Praia dos Estudantes onde morei entre os 11 e 14 anos marcou minha adolescência.
De famílias ligadas ao mar avó, Pai, Tios conhecidos pela alcunha de Gilbertos, Primos etc .
Pelo moinho do Manuel Lazara (irmão do meu avô) passava diariamente centenas de pessoas desde Pescadores, mariscadores em que a ameijoa era o destaque, o Berbigão na maioria utilizado como isco nas Merjonas, os Covos para Chocos, alcatruzes para Polvos.
Redes para a pesca nas diversas formas entre elas a sacada (pesca praticada fora da Barra).
Tapa esteiros em que colocavam as redes na maré vazia, sendo levantadas na maré cheia cercando os Peixes que geralmente entravam numa manga em local estratégico.
De Lembrar os Chenchilhas em que o velhote Manuel ao vender os Burriés, camarões, bocas etc. interpretava sempre para as meninas que pediam sua poesia em versos repentistas.

Também acompanhei a redinha (alguns metros de redes que era arrastado pelas regueiras que desciam com a corrente) com membros da família dos Palhocas .
Ainda as pessoas que vinham apanhar e comprar Murraça para alimentar os animais), cada ilhote era identificado por um nome, e na época os conhecia todos localizados desde onde fundeavam as vedetas Azevia e Bicuda até há ilha do Farol.

A D. Francisquinha Grelha mãe do José Grelha que foi Fiscal dos Serviços da Câmara de Faro era considerada uma pessoa muito culta fruto da sua inteligência.

Conheci todos os terrenos e seus proprietários em volta do local onde se fabricaram os Blocos para as obras da Barra que eram levados por Batelões e Rebocadores que os levavam.
A Jacinta era o nome da Barca que fazia as comunicações entre eles , as obras e o cais Novo.
As Hortas das Famílias Pires, dos Fredericos, do Bolas todas ao sul da Opca , posteriormente apareceu por lá a Cavan (fábrica de Postes e Manilhas) enfim tudo tem sua época.

Termino com meus Parabéns ao grande senhor da escrita que se denomina A. Mingau e todos os intervenientes que motivaram esta minha crônica.

Saudações Costeletas
António Encarnação

DO CORREIO ELECTRÓNICO

A ALEMANHA DE HOJE E DE ONTEM
Por João Brito Sousa

PEQUENAS NOTAS

A situação actual na Europa, boa ou má, não a venho discutir, depende, penso eu, dos alemães, nomeadamente do Banco Central Europeu, sediado na Alemanha.

No passado, por volta de 1820, a Alemanha já era o País dos pensadores e dos poetas , mas também um País de jovens entusiasmados pela liberdade e pela unidade nacional.

Dentre dos poetas, o grande Goethe estava sempre ocupado, majestoso na sua alta serenidade, reconhecido por todos como o maior homem no reino do espírito.

Ao lado do universalismo de Goethe aparecera o romantismo que se opunha ao racionalismo das luzes e mergulhava as suas raízes profundas num passado longínquo.

A paixão que os historiadores sentiam pela história da Alemanha e pela "alma alemã", tornava-os claramente nacionalistas.

Entre os pensadores, Hegel havia tomado a chefia do movimento: expunha perante auditórios numerosos e entusiastas o seu grande sistema filosófico que terminava por uma exaltação do poder do Estado, mais especificamente, do Estado Prussiano.

Segundo Hegel, "filósofo da corte Prussiana" o movimento das ideias obedece a uma lógica dinâmica que é a dialéctica; o movimento cria o real e leva o ser a ultrapassar o seu modo de existência.

O indivíduo não existe, portanto, em si mesmo; é transcendido pela ideia que tende a realizar-se, graças ao conceito superior do Estado monárquico, que associa a liberdade á autoridade e aparece como a encarnação terrestre de Deus.

Tudo muito bonito, mas e a crise?...


Jbritosousa@sapo.pt

Retirado da História Universal de Jorge de Macedo

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

DO CORREIO ELECTRÓNICO

ACERCA DO TEXTO DO MINGAU, MARÉ VIVA.
Por João Brito Sousa (autorizado)

CORRESPONDÊNCIA TROCADA ENTRE OS COSTELETAS DIOGO e JOSÉ ELIAS MORENO.

Disse o Diogo para o Zé Elias.

"Que te pareceu o post do Mingau? O ultimo.
Para mim, que raras vezes comento, nao resisti e comentei!
Abraco
Diogo"

Resposta do Zé Elias,


"Li e reli o texto do Mingau.

Gostei, e para mim que quando estou em Faro , vivo num 6º andar ,frente à nossa Tomás Cabreira tendo o previlégio de admirar toda a Ria desde o Farol até ao Ancão,para lá do Pontal, é emocionante.Também vivi a Ria quando era puto,porque parte dos terrenos entre a praia dos Estudantes e o apeadeiro do Bom João, até à rua José de Matos, frente ao antigo Portão do Fialho adjacente à Casa dos Rapazes, eram do meu Avô materno.Foram expropriados para: com os inertes proceder à construção da actual estrada e Cais Comercial de Faro, bem como Estaleiro de Produção de Blocos de Betão, para a Barra do Porto Faro Olhão.Terminadas as obras, o espaço então vazio transformou-se naquilo a que os Costeletas chamaram o Estádio dos Blocos,onde se realizaram grandiosos encontros de futebol, entre os de Faro e os filhos de Olhão(Parra,Poeira,Zè Palminha ,Nuno, and so on) que ainda completamente alagados em suor abandonavam o jogo e corriam para o apeadeiro ,mal ouviam o apito da automotora a anunciar a partida de S.Francisco.

Tomei banho em cuecas e pesquei alcabrozes, charrocos e muxarras junto ao moínho da D.Francisquinha Grelha ,que me ensinou os segredos do moínho de maré e os primeiros rudimentos da Democracia.Está sábia moleira, tal como o meu pai, eram há muito tempo assinantes de um semanário muito apreciado entre tudo o que na altura se publicava.Chamava-se Gazeta do Sul, era publicado no Montijo e era o que eu costumava chamar de jornalismo agridoce, vinte anos antes de aparecer o Expresso.

Andei a navegar pelos canais da ria ao candeio, à redinha ao berbigão ao polvo e lingueirão.

Já podes ver quanto eu apreciei o texto do Mingau, e calcular o que eu não poderia também escrever se tivesse igual talento.

O teu comentário está absolutamente correcto.

Também tenho curiosidade em saber quem é este Mingau.


Acho que devemos dizer o que sentimos.

Gde Abraço
JEM "


Ps - Um grande abraço de parabens ao costeleta AM do JBS

DO CORREIO ELECTRÓNICO

FALANDO DE


José Vilhena      -    HUMORISTA - CARTOONISTA

Homenagem ao grande humorista José Vilhena, que tem na parede da salade jantar um quadro a óleo com a sua fotografia, onde está desenhado um par de cornos: diz, com uma cara muito séria, que é uma recordação do seu primeiro casamento.

Duas citações dele:

- A fruta roubada tem mais vitaminas.

- O último a rir é o que ri melhor, mas ri durante menos tempo...

IN Wikipédia, a enciclopédia livre.

José Alfredo Vilhena Rodrigues (Freixedas, Pinhel, 7 de Julho de 1927- ), escritor, pintor, cartoonista e humorista português. Frequentou a Escola de Belas-Artes do Porto, mas não chegou a concluir o curso de arquitectura.

Filho de professora primária e de proprietário agrícola, passa a sua infância na pequena terra das Freixedas, perto da cidade de Pinhel.
Aos dez anos de idade foi estudar para Lisboa, indo no meio da sua adolescência para o Porto, onde realizou um ano de tropa. Cursa arquitectura na Escola de Belas-Artes do Porto, mas fica pelo quarto ano, já que começa a desenhar para jornais.

Fixa-se em Lisboa, na zona do Bairro Alto, onde desenha cartoons para os jornais "Diário de Lisboa", "Cara Alegre" e "O Mundo Ri" durante os anos 50. Publica em 1956 Este Mundo e o Outro, a sua primeira colectânea de cartoons, e em 1959 Manual de Etiqueta, livro de textos humorísticos.

Durante os anos 60 a sua actividade de escritor desenvolve-se. Com o fim da revista "O Mundo Ri", publica uma grande quantidade de livros com textos humorísticos. Esses seus mesmos livros e desenhos, muitos deles usando a Censura como tema de paródia, provocaram-lhe problemas com a polícia, mais concretamente com a PIDE, que lhe apreendeu constantemente escritos e lhe causou três estadias na prisão, em 1962, 1964 e 1966. Isso tornou-o muito popular na época. Até ao 25 de Abril de 1974 Vilhena redigiu cerca de 70 livros.

Após a Revolução de Abril Vilhena publica os fascículos periódicos Grande Enciclopédia Vilhena e lança a 15 de Maio do mesmo ano o primeiro número de Gaiola Aberta. Esta revista de textos e cartoons humorísticos foi mantida por ele durante vários anos, satirizando a sociedade da época o que o levou a ser perseguido e a responder várias vezes em tribunal tendo ficado quase na banca rota.

Um interregno de quatro anos ocorreu depois devido a uma fotomontagem que envolvia a princesa Carolina Grimaldi, da qual foi alvo deprocesso de que se defendeu com sucesso.

Vilhena volta assim com O Fala Barato, numa primeira edição em forma de jornal e mais tarde em revista. Depois de deixar de ser publicada seguiu-se O Cavaco e mais recentemente O Moralista.


Enviado por: Diogo Sousa

(NR – Fez no dia 7 de Julho 83 anos. Nasceu em Figueira de Castelo Rodrigo mas, como viveu toda a sua infância em Freixedas, dizia que era natural desta terra.)
                           Um dos muitos cartoons de José Vilhena - (escolhido ao acaso)

DO CORREIO ELECTRÓNICO

GUSTAVE FLAUBERT
Por João Brito Sousa

PEQUENOS TÓPICOS SOBRE A OBRA "EDUCAÇÃO SENTIMENTAL"

GF escreveu "A Educação Sentimental", que é hoje considerado como um dos principais romances franceses do século XIX, a par de algumas obras de Balzac e do "Vermelho e o Negro" de Stendhal.

Aquando da sua publicação em 1869 a crítica acolheu o livro com alguma frieza e falou-se de obra falhada sobre a vida de falhados.

A Educação Sentimental tem como herói um jovem estudante, Frederico Moreau, que , mercê de uma herança, vai tentar a sorte em Paris. Após algumas tentativas inábeis, consegue introduzir-se na aristocracia financeira da capital, nos círculos políticos radicais e no mundo da boémia.

Frederico viu sempre o mundo apenas através dos seus apetites.

Um jantar na cidade. o encontro de um homem em determinado local, o sorriso de uma bela mulher, podiam ter, por uma série de acções que se encadeavam umas nas outras, resultados gigantescos.

Apaixona-se tímida e platònicamente, sendo a eleita a Madame Arnoux esposa do mercador de quadros Jacques Arnoux, um indivíduo sem princípios nem escrúpulos.

Ao mesmo tempo mantém Rosanette, uma cortesã em voga e tem uma ligação com a elegante mas pouco sincera Madame Dambreux.

Por fim, Moreau, nitidamente mais pobre de ilusões e de dinheiro, regressa à sua cidadezinha provinciana para aí viver na ociosidade. A última cena do romance mostra Frederico conversando com o seu velho amigo Deslamiers, outro protagonista da obra.

Frederico Moreau, tal como o Zé Matias da minha terra. Carpinteiro de profissão, veio para Lisboa mas regressou à aldeia.

Uma bonita história de Flaubert.

É o que eu penso.


jbritosousa@sapo.pt

terça-feira, 19 de outubro de 2010


MARÉ VIVA

O barco desliza pela água com extrema suavidade.
Mais do que golpear a água, os remos pensam-na, saboreiam-na. E a água, mais do que tolerar, recebe o suave peso. De tanto pensar a água, de puro norte, o barco está desorientado.
Madeira e água desejam-se.
Há dois lábios de água para cada pedaço da pá de madeira e uma boca de água para cada remo. O céu do paladar dessa boca de água é feito de espuma tranquila e essa tranquilidade é o ensino que reparte o prazer, na forma de erecção deslizante.
O remador assiste a este espectáculo de suavidade com a boca seca e chama em seu auxílio a saliva. Apercebe-se que não governa os remos, que os imita; apercebe-se de que acaricia os punhos, em círculos que se encerram na palma das suas mãos.
Da mesma maneira a água pule a madeira, a madeira é o polimento da água e os olhos aquosos do remador que rema sem remar parecem pérolas nesta cena nacarada.
Durante um longo tempo, o remador não de atreve a abandonar este estado nem a persistir nele.
Agora a madeira está a ponto de incendiar a água e está a ponto de arder. O remador levanta o olhar e, do centro da Ria Formosa, o homem contempla os dois navios de guerra ancorados em frente, nas quatro águas.
Dos navios ouvem-se apitos e ordens e marinheiros a correrem dentro dos navios a Bicuda e a Azevia. Olha os dois vasos de guerra majestosos na sua frente.
O remador dispõe-se a seguir por entre os dois navios. As mãos agarran-se aos remos, que começam de novo a golpearem á água. Madeira e água repelem-se, chamando-se. Madeira e água deixam de se acariciar e tocam-se. Remando e conduzindo o barco até mais à frente. Pára de remar; arruma os remos dentro do barco e lança a ancora pela borda para dentro da água. O barco estaca. Começa a levantar-se a ondulação e nota-se a Água a subir nas margens. Prepara os anzois e coloca-lhes o engodo lançando-os dentro da água. É necessário pescar algum peixe para sustento da família. Levanta os olhos para o céu e repara na lua que se vai erguendo. Lua cheia
Maré viva.

Alfredo Mingau
(Crónica de ficção e realismo)
O CABO FERRADOR
Por João Brito Sousa

É uma personagem de António Lobo Antunes, naquelas crónicas curtas que escreve para a revista Visão. Aqui, sim, gosto muito. De ler um livro seu é mais difícil, porque não consigo. ALA deverá ser um bom escritor mas ainda não me ensinou como devo começar a ler as suas obras . E compete esse trabalho ao autor.

Todavia, não quero retirar-lhe o mérito que possui, porque é um escritor que vende e é credível internacionalmente, portanto.... tudo dito. Gosto das crónicas curtas que escreve na Visão, como disse e, na última, creio, fala do cabo ferrador, que possivelmente teria estado com ele na tropa.

Pego neste assunto, porque num romance que comecei a escrever e está à espera de vez para lhe voltar a pegar, precisava de saber como era isso de ferrar os animais e fui investigar. Achei piada á forma como aquilo se faz, pois o animal às tantas fica de pé, com assentamento nas mãos da frente e numa pata traseira e lá terá de se aguentar.

Por sua vez, o ferrador com o seu avental de couro, vai buscar a ferradura, adapta-a á pata do animal e leva-a à forja para amaciar o ferro e poder trabalhá-lo.

Ali para os lados da juventude do Jorge Tavares havia uma estrebaria, que recolhia animais e fazia esse trabalho.

Profissões que muitas vezes não damos importância mas que é indispensável saber. Será que a malta nova lhes pega? Como outras, a de tosquiador, a de capar animais e por aí fora.

O cabo ferrador de Lobo Antunes é especialista. Nisto e noutras coisas.

Deixo-vos este pequeno texto e um abraço.

JBS

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

CRÓNICA DA SEMANA

A Feira de Santa Iria – e a crise…

Um passeio à feira.

Faz agora um ano que escrevi uma crónica com uma pequena história sobre a velhinha Feira de Santa Iria (desde 1596).
E aí está, mais uma vez, no Largo de S.Francisco, até ao próximo Domingo.
Neste Domingo, dia 17, fomos dar um passeio à feira e, em substituição do jantar resolvemos, para variar, comer naqueles restaurantes que lá estão montados no interior de grandes tendas, saborear as sandes de presunto e/ou o saboroso queijo de ovelha, naquele pão caseiro e apetitoso que aqueles restaurantes cozem nos fornos à vista da clientela.
Procurámos lugar para nos sentarmos e comer descansadamente. Pura loucura; lotação esgotada… Comer de pé? Nem pensar. Valeu-nos um casal simpático acomodado naquelas mesas compridas que, juntamente com outros dois casais amigos se juntaram um pouco mais proporcionando-nos dois lugares. O cheirinho apetitoso da carne grelhada despertou-nos a curiosidade. “Secretos” de carne de porco preto no prato ou no pão. Encomendamos duas sandes de "secretos", duas imperiais e um pratinho de azeitonas britadas. Que grandes sandes e que bela carne tenrinha e saborosa. Saímos daquela grande tenda e, aos encontrões com aquela massa humana, procuramos uma barraca de fabrico de farturas. Dois “charingos” (filhós) e de pé ao balcão dum dos bares móveis tomámos as “bicas” bem quentinhas. Foi a sobremesa. Depois passeamos pela feira apreciando os carrosséis, os automóveis de “embate” e as rodas de cortar a respiração. Tudo repleto de gente. Ao sairmos da feira adquirimos o que antigamente apregoavam por “torrão mó” e, numa pequena barraca, com muitos clientes, duma feirante que nos disse ser ribatejana, compramos as castanhas e as nozes.
Com tanta gente a gastar dinheiro, é caso para se dizer: “é a crise?”.
E saímos, satisfeitos com o passeio e com a refeição.
Voltaremos.

Alfredo Mingau

PONTO DE ENCONTRO

O PARTO, A PRÓSTATA E A VINGANÇA


Ela com 19 anos e eu com 20 anos de idade. Lua-de-mel, viagens, prestações da casa própria e o primeiro bebé, tudo uma beleza.
Anos oitenta a moda na época era ter uma máquina de filmar do Paraguai. Sempre tinha ou tem um vizinho, ou mesmo um amigo contrabandista disposto a trazer aquela muambinha por um precinho muito bom!
Hora do parto ela tinha muita vergonha, mas eu teimoso, desejava muito eternizar aquele momento. Invadi a sala de parto com a câmera ao ombro e chorei enquanto filmava o parto do meu primeiro filho. Todo o mundo que chegava lá em casa era obrigado a assistir ao filme.
Perdi a conta de quantas cópias eu fiz do parto e distribuí entre amigos, parentes e parentes dos amigos. Meu filho e minha esposa eram os meus, orgulho e tesouro
Três anos se passaram aí nova gravidez, novo parto, nova filmagem, nova crise de choro, tudo como antes. Como ela “categoricamente” me disse que não queria que eu a filmasse dessa vez, sem ela esperar invadi a sala de parto e mais uma vez com a camêra ao ombro repeti o mesmo ritual.
As pessoa que me conhecem sabem que em mim havia naquele momento apenas o amor de pai e marido apaixonado nesse ato. O fato de fazer diversas cópias da fita era apenas uma demonstração do meu orgulho.
Nada que se comparasse ao fato de ela, essa semana num instinto de vingança, invadisse a sala do meu urologista, com a câmera ao ombro, filmando o meu exame de próstata. Eu lá, com as pernas naquelas malditas perneiras, o cara com um dedo (ele jura que era só um!) quase na minha garganta e a minha mulher gritando:
- Ah! Doutoooor! Que maravilha! Vou fazer duas mil cópias dessa fita! Semana que vem estou enviando uma para o senhor!
Meus olhos saindo das órbitas fuzilaram aquela cachorra, mas a dor era tanta que não conseguia nem falar. O miserável do médico, pra se exibir, girou o dedão! Ah, eu na hora vi o teto a dois centímetros do meu nariz.
E a minha mulher continuou a gritar, como se fosse um diretor de cinema:
- Isso, doutor! Agora gire de novo, mais devagar dessa vez. Vou dar um close agora…
Na hora alcancei um sapato no chão e joguei na maldita.
Agora estou escrevendo este e-mail pedindo aos amigos, parentes e outros mais que receberam uma cópia do filme, que o enviem de volta para mim. Eu pago o reembolso.

(Luiz Fernando Veríssimo)
Sempre o humor deste grande autor brasileiro (filho do também grande escritor, Erico Veríssimo)

Enviado por: Ferreira Borges

QUANDO ALGUÉM PARTE

PARA O HERNÂNI DO ADRO



Um abraço de pêsames pelo falecimento do filho.



QUANDO UM FILHO PARTE



Os Pais choram, não chega nem é suficiente
Porque fica o desgosto, a dor e tudo o mais.
Para onde é que ele vai? haverá lá gente?
E com esta dúvida ficam a sofrer os Pais.

Todos nós sabemos como tudo isto acontece
É em qualquer dia, qualquer mês, ano, hora
Tudo pode acabar quando menos nos parece
Esse minuto estava marcado e chegou agora

Nada a fazer, apenas tentar entender melhor
Que a vida um dia acaba e de nada vale a dor
Vale sim, viver com honradez e sinceridade

Hoje aconteceu a um filho dum bom colega
Amanhã é outro ou é a tua hora que chega
A vida é isto amigo, não há outra realidade.



João Brito Sousa